Resenha do Livro: Arminianismo – A Mecânica da Salvação, de Silas Daniel

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Por Carlos Roberto

Essa obra literária, chegou em um momento muito pertinente. O autor, é o pastor Silas Daniel, que é conferencista e jornalista, e há tempos, vem escrevendo sobre a teologia arminiana. O grande destaque, desse novo lançamento, é sua abrangência, conteúdo e notas.

Historicamente, o arminianismo no Brasil vem crescendo a cada dia.  Lembro-me, quando a editora Reflexão, traduziu e lançou o livro: Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, de Roger Olson. Foi um sucesso! Pois, muitos irmãos, até mesmo calvinistas e reformados, puderam ler e chegar à conclusão de que nossa crença tem fundamento.

Outro fato marcante na teologia evangélica brasileira, foi a tradução das Obras de Armínio para o português em 2015 pela CPAD. Com isso, o amadurecimento do pensamento soteriológico caminhou a passos largos. Agora, em 2017, somos presenteados com um novo livro sobre o arminianismo.

Outras editoras, como a Reflexão, tem um papel fundamental na divulgação do arminianismo clássico e wesleyano no Brasil, bem como teólogos e escritores, que são versados no tema. A obra, de Silas Daniel, veio somar juntamente com as outras.

Como afirmado acima, o grande destaque da obra, é sua abrangência, pois o autor, divide-a em três partes: História, teologia e exegese.

Antes, de falar, resumidamente sobre isso, abordo minha opinião sobre a introdução. “Ninguém é salvo por entender a mecânica da Salvação, mas por aceitar, pela graça de Deus, a mensagem e o método da Salvação”. Silas Daniel, enfatiza isso com maestria na parte das noções (prolegômenos), do que ele irá tratar no livro.

Muita gente, faz confusão com isso, e até misturam ou confundem os termos. Um crente, simples, não precisa saber o que é arminianismo para ser um eleito, mas o mesmo precisa conhecer a graça de Deus, que faz parte dos ensinamentos básicos do método da salvação. Portanto, essa verdade, abordada, elucida e esclarece o foco principal dessa obra literária.

A parte relacionada a história do arminianismo, começa nos Pais da Igreja Pré-Agostinianos, e vai até Wesley e o legado da teologia arminiana para a formação cultural e política do Ocidente. Daniel, me impressiona, com extensas fontes e notas, do que a tradição teológica antes de Agostinho pensava sobre livre-arbítrio, expiação, graça resistível e eleição.

Destaco também, ainda nessa parte histórica, a diferenciação, que o autor faz do Lutero jovem e do Lutero velho. As comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante estão logo aí, e é de suma importância saber, que o grande reformador, não ficou preso no passado, mas mudou de ideia com relação a Mecânica da Salvação.  A partir de seus últimos escritos, como o próprio Silas Daniel diz, podemos afirmar que Lutero: Cria em uma expiação Ilimitada; que um crente genuíno pode cair da graça; e na crença da depravação total, mas vendo, ao final o livre-arbítrio, mas como Agostinho o via do que como Calvino o via.

Na segunda parte, que trata as questões doutrinárias da teologia arminiana, destaco a sabedoria do autor ao expor teologicamente falando, a luz do próprio contexto da palavra de Deus, as seis correntes entre os proponentes do pecado original. Ao falar sobre a presciência divina, Daniel prova a luz da cosmologia moderna uma indicação de uma não predeterminação. O grande foco, é provar que Deus, não predetermina tudo. O autor, poderia somente falar sobre os 5 pontos do arminianismo, mas ele vai além e quando explica a depravação total, elucida como a imagem de Deus foi danificada em nós por causa do pecado. Ainda sobre isso, Daniel, cita as opiniões de Armínio e de Wesley sobre os efeitos da queda. Gostei muito dessas referências. O livre-arbítrio, para as coisas de Deus e para a salvação, no homem é defeituoso, e muitos crentes não sabem disso, mas o autor traz a lume uma explicação breve.

Quando Daniel, fala sobre a segurança em Cristo, responde se é possível um apóstata voltar à fé e ser salvo. Ele diz que depende, e dá entender biblicamente o motivo, pois não existe somente um caso. A apostasia comum e a do coração endurecido são elucidadas. O autor, fez muito bem abordar isso no livro.

Para encerrar essa parte teológica, parabenizo o autor, por seu equilíbrio e moderação. Não o vejo tratando os calvinistas como hereges. Quando Daniel, mostra as tendências de uma má compreensão da mecânica da salvação e responde a objeções comuns, diz que o liberalismo teológico não é uma peculiaridade ou muito menos uma tendência específica entre arminianos, calvinistas e luteranos.

Na terceira e última parte, que expõe a exegese e os textos bíblicos para uma abordagem da teologia arminiana, Daniel cita dois textos do Antigo Testamento e 9 do Novo Testamento. Há quem diga, que o final poderia ser mais amplo, ou seja, o autor deveria mostrar mais textos da bíblia para uma comprovação da teologia arminiana clássica.

Discordo, pois especificamente, o livro tem um objetivo forte e claro, que é apresentar uma exposição da graça de Deus e da responsabilidade humana no contexto bíblico e isso foi feito muito bem.

Bastante clara, é a evidência do contexto mediato e imediato do capítulo 9 de Romanos. Outra coisa que gostei, foi a explicação de Provérbios 16.4.

Para encerrar, recomendo a todos os meus leitores que se puderem, dentro das suas respectivas limitações, que adquiram essa obra, que traz uma gama de informações sobre o arminianismo, uma teologia antiga, dentro do contexto da história da igreja, e majoritariamente destacável desde os tempos da patrística pré-agostiniana, e teologicamente falando, essa vertente expõe um Deus, que é soberano mas que de maneira nenhuma determina tudo que acontece, e que a própria bíblia dá uma forte referência a isso.

Fontes: Arminianismo – A mecânica da Salvação: Uma exposição histórica, doutrinária, e exegética sobre a graça de Deus e a responsabilidade humana. Silas Daniel, 1 edição, CPAD, Rio de Janeiro, 2017.

Aos interessados, deixo o link do site da CPAD, para a aquisição da obra.

 

 

 

 

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A pecaminosidade humana e sua restauração a Deus

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Por Carlos Roberto

A doutrina do pecado original, é um assunto de suma importância para nós. Felizmente, o tema é de fácil entendimento e biblicamente claro e evidente no contexto da palavra de Deus. Talvez, o que pesa, são os detalhes das consequências do ato em si, na vida do ser humano e como se dá o processo de restauração através da graça. Ou seja, muitos crentes, tem dúvidas sobre esses pormenores.

Portanto, nesse artigo, irei tratar, essas duas perspectivas teológicas, a luz da bíblia e da teologia. Muitas são as passagens bíblicas que dão base para a doutrina do pecado original, mas os textos principais são Romanos 5.12-21, 1 Coríntios 15.21,22 e Efésios 2.1-3.

Mas a final de contas, o que é pecado? Qual a definição correta para compreendermos o significado dessa palavra? Bom, trago a lume algumas referências, que na minha opinião, são precisas.

Segundo o pastor Esequias Soares, a definição teológica do pecado descrito na Declaração de Fé da Assembleia de Deus é “rebelião e desobediência, incapacidade espiritual, a falta de conformidade com a vontade de Deus em estado, disposição ou conduta e a corrupção inata do homem”.

O dicionário teológico, escrito pelo pastor e teólogo pentecostal Claudionor de Andrade, caminha na mesma ideia sobre a definição da palavra pecado: transgressão deliberada e consciente das leis estabelecidas por Deus. Pecado significa, ainda errar o alvo estabelecido pelo Criador ao homem – viver para a glória de Deus.

Depois de definir o que pecado, abordo o quesito das consequências da pecaminosidade em si. São aqueles pormenores, que citei acima.

A depravação total

Como um ser criado à “imagem e semelhança de Deus”, o homem é um ser livre, racional, autoconsciente (imagem natural), dotado de espiritualidade e consciência e agência morais (imagem moral), e que era puro e inocente em seu estado inicial. Com a Queda, narrada em Gênesis 3, essa “imagem e semelhança” não foi destruída no ser humano, mas foi em certo sentido, danificada e, dessa forma, transmitida a todos os seus descendentes (“…à sua semelhança…”, Gn 5.3; Jó 14.4; Sl 51.5; 58.3; Jo 3.5,6 c/c Rm 8.5,8,13; At 17.26; Rm 5.12,19).

Esse entendimento, é o que a teologia chama de depravação total. Calvinistas e arminianos são parceiros nesse ponto e concordam entre si nessa questão. Vale a pena destacar, porém, que total depravação, também chamada e mais conhecida como depravação total, é o nome dado ao entendimento bíblico de que o homem, em razão do pecado, nasce em pecado e tem todas as áreas de sua vida afetada por ele. O fato desta doutrina ser chamada de depravação total faz com que muitos pensem que o homem é tão mal quanto poderia ser, e isso em razão do uso da palavra total. Mas a ideia de total é de extensão e não de intensidade, ou seja, o homem é totalmente depravado no sentido de que todo o seu ser e todas as áreas de sua vida são afetadas pelo pecado.

O teólogo holandês, Jacó Armínio, é preciso e objetivo em suas palavras, ao se referir sobre as consequências do pecado no que tange a depravação humana. “Nesse estado [caído], o livre-arbítrio do homem para o que é bom não somente está ferido, aleijado, enfermo, distorcido e enfraquecido; ele também está aprisionado, destruído e perdido”.

Em seu livro, Arminianismo – A Mecânica da Salvação, o pastor Silas Daniel, explicando essas palavras de Armínio, em sua Declaração de Sentimentos, diz o seguinte: Armínio fala que o livre-arbítrio está “destruído” apenas “para o que é bom”, ele se refere ao livre arbítrio para as coisas de Deus, para uma vida de santidade. “Bom” aqui não significa qualquer ato correto, mas tudo que diz respeito às coisas espirituais.

Enfim, a imagem de Deus no ser humano foi totalmente danificada. Qualquer pessoa, sem a graça de Deus, tem sua racionalidade, entendimento, moralidade, seu ser espiritual, suas emoções, e sua capacidade de relacionar-se com Deus enfraquecidos e prejudicados. É aí que entra, a graça e o amor de Deus, pois somente esses fatores, podem restaurar a pecaminosidade do ser humano.

A restauração através da graça

Keith D. Stanglin e Thomas H. McCall, no livro Jacó Armínio – Teólogo da Graça, citando as Obras de Armínio, trazem uma explicação muito pertinente sobre a questão do arbítrio humano e a graça divina: “A livre escolha “ humana não é um fator decisivo; ao invés disso, na condição caída, a graça de Deus é “absolutamente necessária” para a pessoa desejar o bem. Armínio descreve a graça em termos gerais como a disposição de Deus de “comunicar seu próprio bem e de amar as criaturas, não por mérito ou dívida, nem que isso pudesse acrescer algo a Deus mesmo; mas para que isso possa ser benéfico para aquele a quem o bem é concedido, e que é amado.

Bom, em termos simples, eu posso afirmar e dizer, que sem uma iniciativa de Deus, não podemos agir para com a salvação e para com o evangelho. A restauração da pecaminosidade humana, não é uma coisa relacionada as obras, ou ao esforço do homem. A teologia arminiana, faz o uso do termo graça preveniente, para enfatizar isso. Esse termo, vem desde a época da patrística, e é um pensamento comum na própria história do pensamento cristão. Preveniente, ou precedente, refere a uma ação que antecede a conversão.

Mais uma vez, cito Armínio e suas obras: “O livre Arbítrio, é incapaz de iniciar ou aperfeiçoar qualquer bem verdadeiro e espiritual sem a graça. […] esta graça é simplesmente e absolutamente necessária para o esclarecimento da mente, a devida ordenação dos interesses e sentimentos, e a inclinação da vontade para o que é bom. É essa graça que opera na mente, nos sentimentos e na vontade; que infunde na mente bons pensamentos; inspira bons desejos às ações e faz com que a vontade coloque em ação bons pensamentos e bons desejos. Esta graça vai antes, acompanha e segue; instiga, auxilia, opera o que queremos, e coopera para que não queiramos em vão”

A graça preveniente nada mais é, portanto, do que o amor de Deus em ação; é Deus tomando a inciativa em relação ao homem caído e não apenas no sentido de propiciar a sua salvação, mas também no sentido de habilita-lo a recebe-la e atraí-lo a ela. É ela que concede, nas palavras do pastor e escritor Silas Daniel, ao ser humano a possibilidade de corresponder livremente com arrependimento e fé quando Deus o atrai a si. É a graça preveniente que possibilita ao homem responder positivamente ao chamando divino.

Conclusão

Por enquanto, encerro esses assuntos aqui, mas com certeza, em futuros posts, irei escrever mais sobre esses termos e definições sobre a mecânica da salvação. Meu propósito aqui, é subsidiar aos interessados, alguns aspectos ou pormenores da próxima aula de domingo, da revista das lições bíblicas, que aborda o pecado e o processo de restauração através da graça e do evangelho. Deus abençoe a todos!

Fontes:

A Razão da Nossa Fé – Assim Cremos, Assim Vivemos, Esequias soares, 1 edição, CPAD, Rio de Janeiro, 2017.

O Que é Teologia Arminiana? Wellington Mariano, editora Reflexão.

Dicionário Teológico, Claudionor Correa de Andrade, CPAD.

Armínio, Jacó, As Obras de Armínio, CPAD, volume 1 e volume 2.

Arminianismo – A Mecânica da Salvação, Silas Daniel, CPAD.

Jacó Armínio – Teólogo da Graça, Keith D. Stanglin e Thomas H. McCall, editora Reflexão.

 

 

 

Breve biografia de Jacó Armínio

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JACÓ ARMÍNIO nasceu em Oudewater, uma pequena cidade perto de Utrecht, na Holanda, no ano de 1560. Seus pais eram pessoas respeitadas da classe média. Seu pai era um mecânico engenhoso que atuava no comércio como cuteleiro. Seu sobrenome era Herman, ou, segundo alguns, Harmen. Como era de costume aos homens daquela época, que latinizavam os seus próprios nomes, ou os substituíam por nomes latinos que se adequassem mais a eles no som ou no significado, Armínio escolheu o nome do líder célebre dos alemães do início do primeiro século. Enquanto Armínio ainda era uma criança, seu pai morreu, e ele, juntamente com um irmão e uma irmã, foi deixado aos cuidados de sua mãe viúva. Theodore Aemilius, um clérigo de piedade e educação distintas, que na época residia em Utrecht, familiarizou-se com as circunstâncias da família e encarregou-se da educação da criança. Armínio residiu com esse homem excelente até seu décimo quinto ano, quando a morte o privou de seu patrono. Durante esse período, ele exibiu traços incomuns de genialidade, e foi inteiramente instruído nos elementos da ciência e, em particular, nos rudimentos das línguas latina e grega. Ele foi levado a dedicar-se ao serviço de Deus, e tornouse, embora muito jovem, um exemplo de homem piedoso.

Nessa época, Rudolph Suellius, natural de Oudewater, morava em Marpurg, em Hesse. Rudolph mudou-se para Marpurg a fim de afastar-se da tirania dos espanhóis. Ele era um homem de grande renome no ensino da matemática e das línguas. Ao visitar sua terra natal, Rudolph familiarizou–se e se interessou por seu jovem conterrâneo, e o convidou a ir a Marpurg, sob seu próprio patronato. Armínio o acompanhou, mas, pouco depois de iniciar seus estudos na Universidade, recebeu as notícias pesarosas de que a sua cidade natal havia sido destruída pelo exército espanhol. Ele voltou para a Holanda, e encontrou seus piores medos realizados: sua mãe, seu irmão e sua irmã estavam entre as vítimas da matança indiscriminada que ocorreu após a captura da cidade. Ele refez seus passos tristemente em direção a Marpurg, fazendo a viagem toda a pé.

Durante o mesmo ano (1575) foi inaugurada a nova universidade holandesa em Leiden, sob os auspícios de Guilherme I, Príncipe de Orange. Assim que Armínio soube que a nova instituição havia aberto as portas para a admissão de alunos, preparou-se imediatamente para voltar para a Holanda, e logo ingressou como estudante em Leiden. Ele permaneceu ali durante seis anos, ocupando a mais alta posição no conceito de seus instrutores e de seus colegas estudantes. Ao término desse período, em seu vigésimo segundo ano, Armínio foi recomendado para as autoridades municipais de Amsterdã como um jovem de grande promessa para a utilidade futura, e especialmente digno de seu patronato. Essas autoridades assumiram imediatamente as custas da conclusão dos estudos acadêmicos de Armínio, enquanto Armínio, por sua vez, deu-lhes um título escrito, no qual se comprometeu a dedicar o resto de sua vida, após a sua admissão às Ordens Sacras, ao serviço da igreja naquela cidade, e a não se envolver em nenhum outro trabalho e não ocupar nenhum outro cargo sem a sanção especial dos burgomestres.

Ele foi imediatamente para Genebra, sendo atraído para lá principalmente pela reputação do célebre Beza, que na época estava ministrando naquela Universidade. No entanto, Armínio permaneceu ali durante pouco tempo, pois foi ofendido por alguns dos professores por defender Ramus e seu sistema de dialética em oposição ao sistema de Aristóteles. Ele então se retirou para a Universidade da Basileia, e residiu ali por um ano, durante uma parte do qual, como era de costume para os melhores alunos de graduação, ministrou aulas expositivas sobre temas teológicos, tendo como base o curso universitário comum. Por essas e outras exposições de sua erudição, Armínio adquiriu grande reputação, e, na véspera da sua partida da Basileia, a faculdade de Teologia da Universidade da Basileia ofereceu-lhe o título e o diploma de Doutor. Ele recusou esse título modestamente, alegando, como motivo, sua juventude. O sentimento despertado contra ele na Universidade de Genebra por conta de sua adesão à filosofia de Ramus diminuiu de forma considerável. Ele então retornou para aquela universidade, e permaneceu ali durante três anos, dedicando-se ao estudo da divindade.

No final desse período, vários de seus jovens compatriotas que também estavam estudando em Genebra partiram rumo a uma excursão pela Itália. Armínio decidiu fazer uma excursão semelhante, e foi particularmente inclinado a realizar a viagem pelo desejo de ouvir James Zabarella, que naquela época era um professor de Filosofia da Universidade de Pádua, altamente distinto. Ele permaneceu em Pádua durante um curto espaço de tempo, e também visitou Roma e alguns outros lugares da Itália. Essa viagem foi consideravelmente vantajosa para ele, uma vez que lhe proporcionou a oportunidade de familiarizar-se, através da observação pessoal, com o “mistério da iniquidade”. Além disso, pode explicar o zelo e o vigor com os quais Armínio se opôs posteriormente a muitas das doutrinas e pressupostos do papado. No entanto, a excursão foi temporariamente prejudicial para Armínio, tendo em vista que ele incorreu no desagrado de seus patronos, isto é, o Senado de Amsterdã. É provável que esse descontentamento tenha sido originado e intensificado por algumas pessoas perversas que deturparam gravemente as motivações de Armínio ao visitar a Itália. Mas tudo isso caiu por terra através das declarações de Armínio em seu retorno à Holanda, no outono de 1587. No início do ano seguinte, depois de um exame perante a Classe de Amsterdã, Armínio foi licenciado para pregar, e a pedido das autoridades da igreja, iniciou o seu ministério público naquela cidade. Seus esforços no púlpito foram recebidos com muita predileção, de modo que ele foi chamado, com unanimidade, para o pastorado da igreja holandesa em Amsterdã, tendo sido ordenado no décimo primeiro dia de agosto de 1588.

Certas circunstâncias ocorreram durante o ano seguinte, fatos que, em seu resultado, exerceram uma grande influência sobre os pontos de vista doutrinários de Armínio, e no final conduziram Armínio a adotar o sistema que leva seu nome. No ano de 1578, Coornhert, um homem profundamente religioso, e que havia prestado serviços importantes ao seu país e à Reforma, colocando sua própria vida em risco, em uma discussão com dois ministros calvinistas de Delft, atacou os pontos de vista peculiares de Calvino sobre a Predestinação, a Justificação e a punição dos hereges com a morte de forma magistral e popular. Ele então publicou seus pontos de vista e defendeu uma teoria substancialmente conhecida posteriormente como a teoria arminiana, embora parte de sua fraseologia não estivesse guarnecida o suficiente.

Seu panfleto foi respondido em 1589 pelos ministros de Delft, mas em vez de defender o ponto de vista supralapsariano de Calvino e Beza, que havia sido o objeto particular do ataque de Coornhert, eles apresentaram e defenderam as visões mais baixas ou sublapsarianas, e atacaram a teoria de Calvino e Beza. O panfleto dos ministros de Delft foi transmitido a Armínio por Martin Lydius, professor em Franeker, pedindo que Armínio defendesse o seu ex-preceptor. Ao mesmo tempo, o senado eclesiástico de Amsterdã pediulhe para expor e refutar os erros de Coornhert. Ele iniciou o trabalho imediatamente, mas ao pesar detalhadamente os argumentos a favor do ponto de vista supralapsariano e os argumentos em prol do sublapsarianismo, Armínio inclinou-se a este último, em vez de refutá-lo. Ao continuar suas pesquisas, Armínio dirigiu-se para o estudo mais diligente das Escrituras, e as comparou diligentemente com os escritos dos primeiros patriarcas e com os escritos de teólogos posteriores. O resultado dessa investigação foi a sua adoção da teoria particular da Predestinação que leva seu nome. Inicialmente, para o bem da paz, ele se reservou em suas expressões, e evitou fazer referências especiais ao assunto. Mas logo se convenceu de que tal padrão de ação era incompatível com o seu dever como professor religioso, e começou a testemunhar de forma modesta sobre a sua discordância com os erros recebidos, em especial em seus discursos ocasionais sobre essas passagens das Escrituras, que obviamente necessitavam uma interpretação que estivesse de acordo com os seus pontos de vista mais amplos sobre a atuação divina na salvação dos pecadores. Isso se tornou uma prática constante de Armínio em 1590.

Estando estabelecido há mais de dois anos no ministério em Amsterdã, Armínio se uniu em casamento a uma jovem de grandes realizações e piedade eminente, a quem, durante algum tempo antes, ele havia dedicado seus interesses. Seu nome era Elizabeth Real. Seu pai, Laurence Jacobson Real, foi um juiz e senador de Amsterdã, cujo nome está imortalizado nos anais holandeses da época, por causa do papel decisivo que exerceu na promoção da Reforma nos Países Baixos, constantemente durante a tirania espanhola, correndo o risco de perder suas propriedades e sua vida. Com esta senhorita, com quem se casou no dia dezesseis de setembro de 1590, Armínio desfrutou uma felicidade doméstica invejável e ininterrupta. O casal teve sete filhos e duas filhas. Todos morreram na flor de sua juventude, exceto Laurence, que se tornou um comerciante em Amsterdã, e Daniel, que conquistou a mais elevada reputação na profissão da medicina.

Os próximos treze anos da vida de Armínio foram dedicados ao ministério em Amsterdã, com sucesso eminente e grande popularidade, especialmente entre os leigos. Por vezes, sua apresentação ocasional de pontos de vista diferentes dos ministros em torno dele, que eram, quase sem exceção, fortemente calvinistas, o colocou em sérios conflitos. Em 1591, Armínio expôs o sétimo capítulo da Epístola aos Romanos, e em 1593, o nono capítulo da mesma epístola. Nessas exposições, ele apresentou os pontos de vista que estão presentes em seus tratados sobre esses capítulos nesta edição de suas obras, e em cada uma dessas ocasiões, um ânimo considerável foi produzido contra ele. Sua interpretação do sétimo capítulo, em particular, que é substancialmente a mesma adotada por grande parte dos melhores comentaristas modernos, incluindo alguns que se dizem calvinistas, foi contraposta com frequência na época e também posteriormente, com grande aspereza.

Por volta do final de 1602, ocorreu a morte de Francis Junius, professor de Teologia em Leiden. A atenção dos curadores da universidade foi imediatamente direcionada para Armínio, como a pessoa mais adequada para preencher a cadeira vaga. O convite, que foi devidamente estendido a ele, enfrentou a oposição mais vigorosa por parte das autoridades de Amsterdã, a cuja disposição, como já foi dito, Armínio se comprometeu a dedicar seus serviços durante a vida toda. O consentimento para a sua transferência para Leiden foi finalmente obtido por meio da intercessão especial de Uytenbogardt, o célebre ministro de Haia, de N. Cromhoutius, do Supremo Tribunal da Holanda, e do próprio chefe de estado, Maurício, príncipe de Orange. Muitos dos ministros ultracalvinistas protestaram violentamente contra a chamada a uma posição de tanta importância, ocupada anteriormente por alguém cujos sentimentos sobre pontos considerados vitais eram extremamente heterodoxos em relação aos de Armínio. Neste aspecto, eles tinham o apoio de Francis Gomarus, professor em Leiden. Esse homem, naquela época e posteriormente, durante a vida de Armínio, bem como depois de sua morte, nos debates religiosos que se seguiram entre os “Protestantes” e os “Contra-Protestantes”, manifestou um espírito muito restrito e amargo.

Armínio recebeu o título de Doutor em Divindade pela Universidade de Leiden em onze de julho de 1603, e logo começou a desempenhar as funções de professor de Divindade. Ele percebeu rapidamente que os estudantes de teologia estavam se envolvendo nas controvérsias intrincadas e nas perguntas espinhosas dos escolásticos em vez de se dedicarem ao estudo das Escrituras. Armínio se esforçou imediatamente para corrigir esse mal, e para redirecioná-los à Bíblia como a fonte da verdade. Esses esforços, somados ao fato de que seus pontos de vista sobre a Predestinação eram intragáveis para muitos, proporcionaram a oportunidade e um motivo para acusá-lo de uma tentativa de introduzir inovações. Relatórios ofensivos foram espalhados, e os meios mais injustificáveis foram usados para ferir a reputação de Armínio perante o governo e as igrejas. Armínio suportou esses ataques com grande serenidade, mas não se defendeu publicamente até 1608, quando se justificou de três maneiras diferentes; em primeiro lugar, em uma carta para Hipólito, um Collibus, embaixador das Províncias Unidas do Eleitor Palatino; em segundo lugar, em uma “apologia contra trinta e um artigos”, que, embora escrita em 1608, só foi publicada no ano seguinte; e, por último, em sua nobre “Declaração de Sentimentos”, emitida em trinta de outubro de 1608, perante os Estados, em uma assembleia repleta de ouvintes em Haia.

No início do ano seguinte, Armínio teve uma desordem biliosa, contraída por trabalhos e estudos incessantes, e por permanecer sentado por muito tempo. Sem dúvida, a inquietação e a angústia produzidas em sua mente pela malevolência de seus oponentes contribuíram muito para essa enfermidade, que se tornou tão violenta a ponto de fazer com que Armínio não fosse capaz de se levantar de sua cama. Mas durante alguns meses, em intervalos, embora com grande dificuldade, ele continuou a ministrar suas aulas e desempenhou outras atribuições de seu cargo de professor, até o dia vinte e cinco de julho, quando realizou um debate público sobre “a vocação dos homens para a salvação” (veja a página 509, que foi o último de seus trabalhos na universidade. A agitação causada por algumas circunstâncias ligadas a essa disputa produziu um violento paroxismo de sua doença, da qual ele nunca se recuperou. Ele permaneceu em dor física aguda, mas sem redução de sua alegria habitual, e com plena aquiescência à vontade de Deus, até o dia dezenove de outubro de 1609. Naquele dia, por volta do meio-dia, nas palavras de Bertius, “com os olhos voltados para o céu, em meio às orações fervorosas dos presentes, Armínio entregou calmamente o seu espírito a Deus, enquanto cada um dos espectadores exclamou: ‘Ó minha alma, permita que eu morra a morte dos justos’”.

Assim viveu, e assim, com a idade de 49 anos, morreu Jacó Armínio, distinto entre os homens pela virtude e pela amabilidade de seu caráter privado, doméstico e social; entre os cristãos, por sua tolerância para com aqueles que divergiam de suas opiniões; entre os pregadores, por seu zelo, eloquência e sucesso; e entre os teólogos, por suas fortes opiniões; embora suas visões teológicas fossem amplas e abrangentes, era habilidoso ao argumentar, além de franco e cortês ao lidar com as controvérsias. Seu lema era “Bona Conscientia Paradisus”.

Fontes:

As Obras de Armínio, CPAD, Volume 1.