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Barnabé: o exemplo do mentoreado

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Por Carlos Roberto

Venho por meio deste post, tratar um assunto muito importante. Na minha opinião, o aconselhamento cristão e pastoral, precisa de uma ênfase mais forte nos dias atuais, e por causa dessa carência cito o exemplo de Barnabé no contexto da igreja primitiva e na vida de Saulo de Tarso, que se tornou Paulo, o apóstolo dos gentios.

Quem era Barnabé? 

Barnabé era um homem muito inteligente, profundo conhecedor das Escrituras Sagradas, era um homem que gostava de ajudar as pessoas, era um homem de coragem, e muito amado pelos apóstolos, nos tempos da igreja primitiva. Ele era um homem extremamente religioso e que tinha muitas posses, um homem rico. Mas um dia ele se converteu a Cristo, e começou a se dedicar a pregação do evangelho. Ele era primo de João Marcos (o autor do segundo livro do Novo Testamento]. Na verdade, seu nome era José, mas os apóstolos o chamavam de Barnabé, que significa encorajador.

Em Atos 4.36-37, vemos as seguintes palavras de Lucas:

“Então José, a quem os apóstolos chamavam Barnabé (que significa filho de consolação), levita, natural de Chipre, possuindo um terreno, vendeu-o, trouxe o dinheiro e colocou-o aos pés dos apóstolos”.

Barnabé era um levita, um judeu, um homem muito importante e rico, mas o que me chama a atenção na vide dele são suas atitudes pós-conversão. Segundo David Edward:

“Barnabé é caracterizado não apenas como um estudioso da bíblia, mas com experiência transcultural e muito amado entre os apóstolos. Um homem de coragem contagiante (encorajador), comprometido com o Reino, desprendido das coisas materiais, generoso, confiante nos apóstolos e, com maior simplicidade, a eles submisso”.

Barnabé era um homem a frente de seu tempo! E isso contribuiu de uma forma extraordinária para a divulgação de evangelho entre os gentios e para a própria história do início da igreja primitiva.

Os exemplos de Barnabé como conselheiro e mentor

Os exemplos de mentoreado na vida de Barnabé são muitos, mas para fins de pesquisa e futuras abordagens, cito alguns episódios narrados por Lucas em Atos dos Apóstolos. No capítulo 9.26-28, vemos o momento pós-conversão de Paulo, onde ele tenta se reunir com os apóstolos em Jerusalém.

Todos tinham medo dele (Paulo) e não acreditavam em suas palavras. Vemos que ele precisava de ajuda. Como se pode ver no texto, Barnabé demonstra ser um verdadeiro conselheiro, mentor, ou uma ajuda na hora certa. Barnabé viu o que ninguém foi capaz de ver, ele viu em Paulo um homem convertido, e que dizia a verdade. Através do testemunho de Barnabé e de sua defesa em favor de Paulo, os apóstolos permitiram a entrada de Paulo na igreja e em Jerusalém para pregar o evangelho.

Após treze anos desse fato, vemos o contexto do evangelho sendo pregado em Antioquia, e uma grande demanda. Quem iria ser enviado para lá? Com uma experiência transcultural, madura e conselheira? Esse homem era Barnabé! Existia uma certa preocupação da igreja em Jerusalém por causa das conversões dos gentios, e por causa disso, Barnabé foi enviado. Para maiores informações sobre isso, leia a narrativa em Atos 11.22-26.

Para encerrar essa parte, cito o capítulo 15 do livro de Atos e o versículo 37, onde Lucas narra os planos para a segunda viagem missionária de Paulo junto com Barnabé e sua equipe. Somos informados que Barnabé aconselha Paulo que levem João Marcos, primo de Barnabé. Paulo não concorda, pois João Marcos tinha desistido da primeira viagem, e tinha abandonado eles. Paulo e Barnabé discutem sobre a questão.

Cada um segue uma rota diferente. Paulo e Silas vão para uma região, e Barnabé e João Marcos para outra. Mas, o que nos chama atenção nessa história é a firme convicção de Barnabé em não desistir do ministério de João Marcos. Marcos se tornou um grande pregador, a bíblia tem um livro que leva seu nome, o evangelho de Marcos.

Deus trabalha mesmo através dos conflitos, nem sempre concordamos com muitas coisas como cristãos. Mas os problemas são resolvidos quando aceitamos as diferenças e permitimos que Deus faça a sua vontade. Anos depois dessa história vemos Paulo reconhecendo o ministério de Marcos, em sua segunda carta escrita a Timóteo no capítulo 4.7, onde ele diz: Traga Marcos, porque ele me é útil para o ministério. Se não existisse Barnabé, no cenário bíblico, talvez não tivesse existido o ministério de Paulo, suas cartas, e o ministério de João Marcos também não existiria, nem o evangelho que leva seu nome.

Características de um mentor idôneo

David Edward, citando uma citação do século II de Clemente de Alexandria, que cita a presença de Barnabé entre os 72 discípulos enviados por Jesus em Lucas 10.1-12,16, fala as características que esse grupo tinha:

Trabalho em equipe
Visão: enxerga a colheita e a necessidade de levantar obreiros
Oração: coloca-se diante de Deus antes de iniciar o ministério
Coragem: vai a frente, sem receio, mesmo ciente de que está como ovelha entre lobos e de que haverá batalha
Fé e estilo de vida simples: não se preocupa com dinheiro, bagagem e outros recursos, mas permanece na dependência de Deus
Pessoa de paz: estende e reconhece a paz (shalom), a harmonia
Pessoa que se relaciona: estabelece-se numa casa, numa família, finca raízes. Não apenas parece boa, mas de fato é boa e íntegra
Pessoa do Reino de Deus: é submissa ao Rei e por isso tem autoridade
Discernimento: percebe que compartilha o que mesmo espírito
Humildade suficiente para receber: consegue depender de outros com graça
Capaz de lidar com conflito: Fala a verdade quando necessário e enfrenta a rejeição sem levar para o lado pessoal.

Segundo o escritor, essas constituem algumas qualidades que de fato caracterizavam Barnabé, como mentor idôneo que foi.

Conclusão

Diante de tudo que foi dito, cabe a nós refletirmos melhor sobre o aconselhamento pastoral, sobre os nossos líderes e autoridades eclesiásticas. Infelizmente, existem muitos líderes que não sabem administrar os conflitos de quem está necessitado e que precisa de uma ajuda. É um fato comprovado, que alguns “pastores” não sabem mentorear, aconselhar e nem muito menos cuidar de uma ovelha ou um membro de sua igreja, por isso, precisamos orar a Deus e acreditar no trabalho daqueles que ainda se esforçam nesse sublime ministério. Em futuras postagens, pretendo tratar outros temas específicos sobre o aconselhamento pastoral. Deus abençoe a todos, amém!

Fontes:

Bíblia Sagrada Almeida Século 21.

Paulo e sua Teologia, 2 edição, organizador: Lourenço Stelio Rega, editora Vida.

Tolerar o fraco na fé: um dever cristão

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Por Carlos Roberto

Caro leitor, pensar em si mesmo, ser orgulhoso e acreditar que o mundo gira em torno de si, são fatores preocupantes na vida do ser humano no que tange aos seus relacionamentos. Ora, as velhas desculpas são as mesmas: Não tenho tempo para isso, não me importo, não quero, etc.  De qualquer forma, a verdade está logo aí, ou seja, no mundo atual em que nós vivemos, muitas vezes não queremos nos relacionar com o próximo e ajudar quem realmente precisa de um ombro amigo ou de uma ajuda.

Esse problema, não é novo e está longe de uma solução, e quando olhamos para a igreja, vemos a grande problemática do orgulho nas fileiras do cristianismo antigo e moderno. O capítulo 14, da carta de Paulo aos Romanos é um exemplo claro disso. O cerne da questão é o seguinte: Tolerar o fraco na fé. Para muita gente, isso não importa ou não interessa, mas o dever de ajudar quem realmente precisa é uma tarefa de todo cristão comprometido com o senhorio de Cristo.

Pretendo dividir esse artigo em pelo menos duas partes, para tentar dar minha contribuição ao entendimento do capítulo 14 da epístola paulina a igreja de Roma: Questões textuais e exegéticas e questões devocionais e práticas.

Questões textuais e exegéticas

No que tange as inúmeras versões da bíblia, aprecio a versão Almeida Século 21, do texto bíblico. Vejam Romanos 14.1: “Acolhei o fraco na fé, mas não para debater opiniões” [1]. Quem é o fraco no texto paulino? Bom, os teólogos e estudiosos bíblicos opinam sobre isso, nas mais variadas opções. John Stott, cita pelo menos quatro dessas opções em seu comentário:  1- Ex-idólatras, recém-convertidos do paganismo, 2- ascetas, 3- legalistas e 4- cristãos judeus.

O que nos interessa, é a última opção: Cristãos judeus. A concordância geral se encaixa neste grupo. Apesar deles (os judeus) estarem inseridos no corpo de Cristo e fazerem parte da comunidade cristã de Roma, lá pelo idos 57 ou 58 D.C, os costumes e a cultura judaica estavam presente em suas vidas. Regras com relação a dieta (Rm 14.14.20) e os dias religiosos (Rm 14.5) eram ainda a pratica de vida desses irmãos.

O que mais interessa neste artigo é questão dos fracos, mas para um entendimento melhor do contexto bíblico, é necessária uma rápida explicação de quem eram os fortes. Os fortes, eram os gentios que tinham se convertido a Cristo e entendido rapidamente a liberdade cristã, e por isso não precisavam cumprir os ditames e ritos judaicos para servirem a Cristo.

Infelizmente, muitos irmãos não entendem o capítulo 14 da carta paulina a igreja romana. O legalismo judaico, não era uma questão a ser resolvida aqui. Quando Paulo escreve aos Gálatas, o contexto era outro e totalmente diferente da igreja em Roma. Ao Gálatas, Paulo emite anátemas contra aqueles que tentavam ensinar outro evangelho, aos Romanos ele diz: “Quem come não despreze quem não come; e quem não come não julgue quem come; pois Deus o acolheu” (Rm 14.3).

O contraste situacional é bem evidente não é mesmo? As igrejas na região da Galácia, estavam propensas ao engano e a mentira do legalismo, e isso remetia a um afastamento do verdadeiro evangelho, já a igreja em Roma não estava em um conflito que comprometia a fé dos fracos, para um afastamento da mesma, pois Paulo diz que Deus acolheu o fraco. Como Deus iria acolher uma pessoa que ele amaldiçoou?

No que se refere a questões exegéticas, como entender o que é ser fraco no texto paulino? A palavra grega ἀσθενοῦντα (asthenounta) pode significar tanto uma enfermidade física, como espiritual (Lc 5.15; 1 Co 11.30) [2].O dicionário Strong, define essa palavra como: ser fraco, débil, estar sem força, sem energia e estar carente de recursos.  Muito pertinente, é o comentário de William M. Greathouse:

“Paulo começa com uma ordem abrupta: Quanto ao que está enfermo na fé (ton de asthenounta te piste), recebei-o. “Aquele que é fraco na fé, é aquele que não entende que a salvação é pela fé do princípio até o fim, e que aquela fé é garantida pela sua própria perfeição e intensidade, não por tímidos escrúpulos de consciência”. Apesar disso, os romanos deveriam receber (proslambanesthe) este crente temeroso em uma completa comunhão cristã. O verbo é frequentemente usado a respeito da graciosa aceitação dos homens por parte de Deus: se Deus recebe este homem hesitante, nós devemos fazer o mesmo. Godet destaca que o emprego que Paulo faz da partícula asthenounta, em lugar do adjetivo que significa fraco (asthene) indica alguém que é momentaneamente fraco, mas que pode tornar-se forte. Dentro da igreja ele pode chegar a uma compreensão mais adequada do evangelho, e assim passar a desfrutar a “completa certeza da fé” (Hb 10.19-23) ”. [3]

Questões devocionais e práticas

Relembrando o início deste artigo, podemos notar que em uma perspectiva bíblica, cristãos fracos e fortes devem viver em harmonia, em amor e principalmente no equilíbrio. É dever de todo crente em Cristo ajudar quem é débil na fé, é dever nosso ajudar quem adulterou, aconselhando essa pessoa com o devido cuidado e amor, é dever nosso perdoar, é dever nosso instruir o novo convertido.

Uma grande verdade, é que muitas vezes, os crentes julgam outros por causa dos seus erros e defeitos. Não deveria ser assim, mas infelizmente é. Uma grande perca de tempo, na minha humilde opinião é a velha briguinha por causa dos usos e costumes ou de alguma norma denominacional eclesiástica.

Apesar de nossos posicionamentos, opiniões ou condições no corpo de Cristo: Fracos ou fortes temos que entender nossa posição como servos de Cristo. Vejam só, o que John Stott diz sobre isso:

“Uma área em que essa distinção entre fé e amor deveria funcionar é na diferença entre aquilo que é essencial e o que não o é, em se tratando de doutrina e prática cristãs. Embora nem sempre seja fácil distinguir um do outro, uma diretriz segura é que aquelas verdades sobre as quais a Escritura fala claramente são essenciais; agora, sempre que cristãos igualmente bíblicos, igualmente ansiosos por entender e obedecer a Escritura, chegam a diferentes conclusões, estas devem ser consideradas questões não-essenciais. Muita gente vive se gabando pelo fato de que sua denominação é “bastante aberta”; tem espaço para qualquer um. Mas existem dois tipos de “abertura”: a que se baseia em princípios estabelecidos e aquela que não tem princípio algum”. [4].

Conclusão

Fracos ou fortes na fé precisam viver juntos e isso é o que importa! Não é uma tarefa fácil, mas a igreja contemporânea precisa entender isso de uma vez por todas. E com relação ao fraco na fé, que é incapaz de entender precisamos tolera-lo cumprindo nosso dever no corpo de Cristo.

A bíblia de estudo Aplicação pessoal traz uma reflexão muito interessante:

“Quem é fraco e quem é forte na fé? Todos somos fracos em algumas áreas, e fortes em outras. Nossa fé será forte em determinada área se pudermos sobreviver ao contato com pessoas mundanas sem nos deixar envolver pelos padrões delas; e será fraca em outra e tivermos de evitar certas atividades, pessoas ou lugares, a fim de proteger nossa vida espiritual. É importante fazermos uma avaliação, para descobrir nossos pontos fortes e fracos. Devemos perguntar-nos: “Será que posso fazer isso sem pecar?; “Posso influenciar os outros para o bem, sem me deixar influenciar pelo mal? “Nas áreas em que somos fortes, não devemos ter receio de ser pervetidos pelo mundo; devemos servir a Deus. Nas áreas em que somos fracos, precisamos ser cautelosos. Se tivermos uma fé sólida, mas a escondemos, não será possível fazer a obra de Cristo neste mundo; se expusermos uma fé débil, seremos extremamente todos”. [5]

Deus abençoe a todos os leitores, até o próximo artigo. Amém!

Fontes: [1] Bíblia Sagrada Almeida Século 21, Edições Vida Nova.

[2] José Gonçalves, Maravilhosa Graça – O Evangelho de Jesus Cristo Revelado na Carta aos Romanos, 1 Edição, CPAD, Página:126.

[3] William M. Greathouse, Comentário Bíblico Beacon, Volume 8, páginas: 173-174, CPAD.

[4] Série a Bíblia Fala Hoje – A Mensagem de Romanos, John Stott, Página: 239, Editora Abu.

[5] Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, CPAD.