Uma breve reflexão sobre a epístola paulina aos Filipenses

A letra mata-

Por Carlos Roberto

Caro leitor, quando lemos a carta de Paulo escrita aos Filipenses aprendemos muitas lições importantes. Essa epístola paulina faz parte do grupo de cartas escritas pelo Apóstolo dos Gentios na prisão, juntamente com Efésios, Colossenses e Filemom.

Diferentemente, de outros escritos, não vemos uma ênfase sistemática e teológica nessa carta, pelo contrário, esta é uma das epístolas mais pessoais de Paulo, onde vemos vários momentos de sua vida, principalmente a frequência da primeira pessoa do singular.

Paulo escreveu a um grupo seleto de amigos e companheiros do Evangelho e as marcas dominantes no escrito paulino são a alegria, a gratidão e o serviço, atitudes essas extraordinárias, quando vemos o contexto no qual Paulo estava inserido (a prisão).

Ora, segundo, a cronologia bíblica, e os estudiosos dos assuntos neotestamentários essa carta foi escrita provavelmente no ano 62 D.C, das próprias mãos do Apóstolo, e, diga-se de passagem, que muitas das cartas do Apóstolo Paulo foram escritas pelos amanuenses, ou escritores contratados.

Atualmente, vivemos um caos no testemunho cristão. Muita gente em nossas igrejas, são crentes nominais, suas vidas, são apegadas ao ódio e a murmuração. Um grande contraste, com Paulo e seus cooperadores na obra missionária.

E por falar nisso, uma das lições mais importantes, que noto nesse livro bíblico, é comprometimento de um ajudante de Paulo na causa do Evangelho, e em seu ministério missionário e apostólico.

Quando lemos Filipenses 2.25.30, vemos um homem chamado Epafrodito, um nome talvez não muito comum em nosso tempo, mas que nos remete realmente ao significado de sermos humildes no serviço cristão.

Diz o texto bíblico, que Epafrodito era cooperador na obra de Deus, companheiro de Paulo em suas lutas, e auxiliar das necessidades, características essas infelizmente não vistas, em nossa contemporaneidade cristã exclusivista, que não pensa na diaconia e nem muito menos em se dedicar realmente na obra de Deus com humildade.

Homens dispostos a fazer a obra de Deus como Epafrodito, infelizmente são poucos. Mas nós como Igreja de Cristo somos exortados a desempenhar como ele um bom Serviço Cristão.

Deus abençoe a todos! Até o próximo post.

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Barnabé: o exemplo do mentoreado

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Por Carlos Roberto

Venho por meio deste post, tratar um assunto muito importante. Na minha opinião, o aconselhamento cristão e pastoral, precisa de uma ênfase mais forte nos dias atuais, e por causa dessa carência cito o exemplo de Barnabé no contexto da igreja primitiva e na vida de Saulo de Tarso, que se tornou Paulo, o apóstolo dos gentios.

Quem era Barnabé? 

Barnabé era um homem muito inteligente, profundo conhecedor das Escrituras Sagradas, era um homem que gostava de ajudar as pessoas, era um homem de coragem, e muito amado pelos apóstolos, nos tempos da igreja primitiva. Ele era um homem extremamente religioso e que tinha muitas posses, um homem rico. Mas um dia ele se converteu a Cristo, e começou a se dedicar a pregação do evangelho. Ele era primo de João Marcos (o autor do segundo livro do Novo Testamento]. Na verdade, seu nome era José, mas os apóstolos o chamavam de Barnabé, que significa encorajador.

Em Atos 4.36-37, vemos as seguintes palavras de Lucas:

“Então José, a quem os apóstolos chamavam Barnabé (que significa filho de consolação), levita, natural de Chipre, possuindo um terreno, vendeu-o, trouxe o dinheiro e colocou-o aos pés dos apóstolos”.

Barnabé era um levita, um judeu, um homem muito importante e rico, mas o que me chama a atenção na vide dele são suas atitudes pós-conversão. Segundo David Edward:

“Barnabé é caracterizado não apenas como um estudioso da bíblia, mas com experiência transcultural e muito amado entre os apóstolos. Um homem de coragem contagiante (encorajador), comprometido com o Reino, desprendido das coisas materiais, generoso, confiante nos apóstolos e, com maior simplicidade, a eles submisso”.

Barnabé era um homem a frente de seu tempo! E isso contribuiu de uma forma extraordinária para a divulgação de evangelho entre os gentios e para a própria história do início da igreja primitiva.

Os exemplos de Barnabé como conselheiro e mentor

Os exemplos de mentoreado na vida de Barnabé são muitos, mas para fins de pesquisa e futuras abordagens, cito alguns episódios narrados por Lucas em Atos dos Apóstolos. No capítulo 9.26-28, vemos o momento pós-conversão de Paulo, onde ele tenta se reunir com os apóstolos em Jerusalém.

Todos tinham medo dele (Paulo) e não acreditavam em suas palavras. Vemos que ele precisava de ajuda. Como se pode ver no texto, Barnabé demonstra ser um verdadeiro conselheiro, mentor, ou uma ajuda na hora certa. Barnabé viu o que ninguém foi capaz de ver, ele viu em Paulo um homem convertido, e que dizia a verdade. Através do testemunho de Barnabé e de sua defesa em favor de Paulo, os apóstolos permitiram a entrada de Paulo na igreja e em Jerusalém para pregar o evangelho.

Após treze anos desse fato, vemos o contexto do evangelho sendo pregado em Antioquia, e uma grande demanda. Quem iria ser enviado para lá? Com uma experiência transcultural, madura e conselheira? Esse homem era Barnabé! Existia uma certa preocupação da igreja em Jerusalém por causa das conversões dos gentios, e por causa disso, Barnabé foi enviado. Para maiores informações sobre isso, leia a narrativa em Atos 11.22-26.

Para encerrar essa parte, cito o capítulo 15 do livro de Atos e o versículo 37, onde Lucas narra os planos para a segunda viagem missionária de Paulo junto com Barnabé e sua equipe. Somos informados que Barnabé aconselha Paulo que levem João Marcos, primo de Barnabé. Paulo não concorda, pois João Marcos tinha desistido da primeira viagem, e tinha abandonado eles. Paulo e Barnabé discutem sobre a questão.

Cada um segue uma rota diferente. Paulo e Silas vão para uma região, e Barnabé e João Marcos para outra. Mas, o que nos chama atenção nessa história é a firme convicção de Barnabé em não desistir do ministério de João Marcos. Marcos se tornou um grande pregador, a bíblia tem um livro que leva seu nome, o evangelho de Marcos.

Deus trabalha mesmo através dos conflitos, nem sempre concordamos com muitas coisas como cristãos. Mas os problemas são resolvidos quando aceitamos as diferenças e permitimos que Deus faça a sua vontade. Anos depois dessa história vemos Paulo reconhecendo o ministério de Marcos, em sua segunda carta escrita a Timóteo no capítulo 4.7, onde ele diz: Traga Marcos, porque ele me é útil para o ministério. Se não existisse Barnabé, no cenário bíblico, talvez não tivesse existido o ministério de Paulo, suas cartas, e o ministério de João Marcos também não existiria, nem o evangelho que leva seu nome.

Características de um mentor idôneo

David Edward, citando uma citação do século II de Clemente de Alexandria, que cita a presença de Barnabé entre os 72 discípulos enviados por Jesus em Lucas 10.1-12,16, fala as características que esse grupo tinha:

Trabalho em equipe
Visão: enxerga a colheita e a necessidade de levantar obreiros
Oração: coloca-se diante de Deus antes de iniciar o ministério
Coragem: vai a frente, sem receio, mesmo ciente de que está como ovelha entre lobos e de que haverá batalha
Fé e estilo de vida simples: não se preocupa com dinheiro, bagagem e outros recursos, mas permanece na dependência de Deus
Pessoa de paz: estende e reconhece a paz (shalom), a harmonia
Pessoa que se relaciona: estabelece-se numa casa, numa família, finca raízes. Não apenas parece boa, mas de fato é boa e íntegra
Pessoa do Reino de Deus: é submissa ao Rei e por isso tem autoridade
Discernimento: percebe que compartilha o que mesmo espírito
Humildade suficiente para receber: consegue depender de outros com graça
Capaz de lidar com conflito: Fala a verdade quando necessário e enfrenta a rejeição sem levar para o lado pessoal.

Segundo o escritor, essas constituem algumas qualidades que de fato caracterizavam Barnabé, como mentor idôneo que foi.

Conclusão

Diante de tudo que foi dito, cabe a nós refletirmos melhor sobre o aconselhamento pastoral, sobre os nossos líderes e autoridades eclesiásticas. Infelizmente, existem muitos líderes que não sabem administrar os conflitos de quem está necessitado e que precisa de uma ajuda. É um fato comprovado, que alguns “pastores” não sabem mentorear, aconselhar e nem muito menos cuidar de uma ovelha ou um membro de sua igreja, por isso, precisamos orar a Deus e acreditar no trabalho daqueles que ainda se esforçam nesse sublime ministério. Em futuras postagens, pretendo tratar outros temas específicos sobre o aconselhamento pastoral. Deus abençoe a todos, amém!

Fontes:

Bíblia Sagrada Almeida Século 21.

Paulo e sua Teologia, 2 edição, organizador: Lourenço Stelio Rega, editora Vida.

A letra mata! A exclusão da teologia no contexto evangélico e contemporâneo. (post atualizado)

A letra mata-

Por Carlos Roberto

Venho por meio deste texto tratar de um assunto muito sério e atual. É realmente preocupante, que ainda existam crentes que usam de todos os artifícios e citações bíblicas fora de contexto para afirmarem seus posicionamentos contra a teologia. Historicamente, o estudo teológico sempre foi visto com muita desconfiança na Assembleia de Deus e isso remete a distorções das Escrituras e como no caso em questão, as palavras de Paulo em sua segunda carta a igreja de Corinto.

Um problema histórico

Antes de explicar a interpretação correta da expressão a letra mata, e algumas características dos crentes que se comportam assim, rejeitando a teologia e o estudo bíblico, abordo o quesito histórico.

Em uma postagem anterior, expus o analfabetismo bíblico, como um fator preocupante na história da pregação assembleiana. Infelizmente, esse sempre foi nosso problema, o medo de perdermos nossa espiritualidade ou nossa comunhão com Deus por causa do estudo teológico.

Na AD, sempre houve líderes contra e a favor da teologia, com grandes debates acalorados em convenções e até artigos lançados nos principais periódicos editoriais como o Boa Semente, o Som Alegre e o Mensageiro da Paz, que é uma fusão destes dois. Segundo Clayton Pormmerening:

A visão positiva em relação à educação nas Assembleias de Deus no Brasil é um evento recente que começa a tomar forma e força, impondo-se sobre as compreensões e ideias contrárias até então presentes. Durante muitos anos, em sua fase de consolidação, houve forças contrárias à educação teológica formal, o que pode ter preservado esta igreja de algumas racionalidades que poderiam ter esfriado o movimento. Por outro lado, trouxeram prejuízos aos quais cabem reparos. Quais os principais fatores da rejeição teológica que este movimento enfrentou? Quem foram seus defensores e opositores? Quais discursos fizeram e fazem parte da disputa por racionalidade teológica e não racionalidade experiencial? [1]

Não é a minha intenção responder essas perguntas, pois isso requer muito tempo, e o escritor elenca em sua tese, ótimas respostas com fontes seguras. O melhor a fazermos hoje é refletirmos nos erros de nossos antepassados e encararmos a dura realidade de que levamos muito tempo para cair a ficha. Por causa de muito radicalismo, fanatismo religioso, inveja, conflitos de líderes e o uso da costumeira frase pejorativa fábrica de pastores, a AD perdeu e muito. Naqueles tempos, qualquer obreiro que estudava na tal fábrica de pastores corria sérios riscos. Claro isso era defendido pela turma que defendia que a teologia prejudicava o pentecostalismo e a vida espiritual. Para maiores informações sobre isso, cliquem aqui.

Interpretando a expressão bíblica a letra mata

A norma áurea, da hermenêutica e da exegese é essa: a bíblia explica a própria bíblia. O texto sem contexto é pretexto para heresias. Ora, 2 Coríntios 3.6 é um versículo isoladamente usado para afirmar que a teologia prejudica a vida espiritual do crente.

As epístolas paulinas, foram escritas dentro de um contexto de necessidades eclesiásticas e situacionais. 2 Coríntios, foi uma carta escrita para a defesa do apostolado de Paulo entre os anos de 55, 56 ou 57 D.C. Na ocasião da escrita, possivelmente Paulo se encontrava na Macedônia.

O capítulo 3, é uma explicação paulina da excelência e supremacia do ministério da nova aliança. A letra, palavra essa que Paulo cita, no versículo 6, não se relaciona com o estudo teológico. A própria vida de Paulo é oposta a isso! Paulo era um erudito, conhecia a fundo o hebraico, o grego e o aramaico, ele foi um judeu bem respeitado que estudou aos pés de Gamaliel, foi um dos principais fariseus e depois de convertido um dos doutores da igreja (At 13.1).

Seria muito estranho se o apóstolo dos gentios ensinasse uma coisa que não se encaixava em sua biografia e em sua vida não é mesmo?

Bom, e o texto? E jargão a letra mata? Tem respaldo bíblico? A resposta é um sonoro não! Não vou entrar nos pormenores exegéticos no momento, mas somente dar uma rápida explicação simples. Segundo a bíblia de estudo aplicação pessoal:

A frase “a letra mata, e o Espírito vivifica significa que tentar ser salvo mantendo as leis do AT terminará em morte. Somente crendo no Senhor Jesus Cristo uma pessoa pode receber a vida eterna por meio do Espírito Santo. Ninguém, exceto Jesus cumpriu a lei perfeitamente. Desde modo, o mundo inteiro está condenado à morte. A lei faz as pessoas perceberem seu pecado, mas não pode dar vida. Sob a nova aliança, que significa promessa ou acordo, a vida eterna vem do Espírito Santo. O Espírito dá um novo viver a todos os que crêem em Cristo. A lei moral (os Dez Mandamentos) ainda aponta os nossos pecados e nos mostra como obedecer a Deus, mas o perdão vem somente pela graça e misericórdia de Cristo (ver Rm 7.10 -8.2). [2]

Já deu para notar que isso não tem nada a ver com uma rejeição a teologia? Esse pessoal precisa ler mais a bíblia e frequentar a escola dominical

Os motivos do comportamento de alguns crentes atuais rejeitarem a teologia

Depois de abordar a questão da história e do versículo bíblico, usado por quem é contra a teologia, passo a explicar as causas comportamentais dos crentes de hoje em dia agirem assim, em uma rejeição ao estudo teológico. Neste ponto, não vou especificar muitas coisas, mas expor minhas próprias impressões pessoais.

A maioria dos cristãos, que rejeita, o curso de teologia ou o estudo bíblico, não leem a bíblia, não frequentam a escola dominical, não vão aos cultos de doutrina ou de ensino em suas respectivas igrejas ou congregações.

A grande realidade, é que esses “crentes”, são problemáticos, rebeldes aos seus líderes e pastores. Eles não querem dar o braço a torcer, não querem aprender nada, preferem ir ao monte orar e buscar a “espiritualidade”, eles preferem achar que estão sempre certos.

Por incrível que possa parecer, ainda tem muita gente assim na AD, e mudar a mente desse pessoal não é uma coisa fácil. Oremos!

Conclusão

O grande teólogo Jacó Armínio, que deu uma grande contribuição para a reforma protestante na Holanda no final do século XVI e início do século XVII, dizia que a finalidade da teologia era abençoar o homem. Quem dera, se todos os cristãos de hoje entendessem isso!

A demanda do discipulado teológico requer muita dedicação, os mitos e as fantasias contra o estudo teológico precisam cair por terra, e cabe a mim e a você caro leitor, essa honrosa tarefa. Cursos de teologia existem aos montes, as editoras também estão aí, com obras de Todo tipo de assunto. Talvez, o que realmente precisamos são iniciativas e objetivos bem estabelecidos. Seria muito pertinente, se todo pastor ou líder cristão incentivassem os crentes a estudarem a bíblia a teologia, mas infelizmente precisamos sermos realistas, isso não acontece.

De qualquer forma, eu louvo a Deus, pela vida de muitos irmãos, e maioria deles jovens, pessoas que talvez não sejam conhecidas nos altos escalões convencionais eclesiásticos, que são excelentes teólogos, são anônimos, mas estão no mesmo nível e patamar de muitos doutores, mestres e escritores. São inúmeros blogs, sites e páginas nas redes sociais, de crentes não conhecidos na perspectiva teológica literária que ajudam outros a compreenderem melhor os assuntos teológicos.

Encerro por enquanto esse assunto, mas é preciso debatermos mais essa questão, e tentar de todas as formas excluir essa tradição que ainda assola a AD, de que a teologia esfria o crente ou prejudica sua vida espiritual.

Deus abençoe a todos!

Fontes:

[1] Pommerening, Claiton Ivan. Tese de doutorado – Fábrica de pastores: interfaces e divergências entre educação teológica e fé cristã comunitária na teologia pentecostal (Escola Superior de Teologia/São Leopoldo).

[2] Bíblia de estudo aplicação pessoal, versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995. CPAD.

Aprendendo lições com a mentira de Ananias e Safira

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Por Carlos Roberto

Caros leitores, dessa vez, vamos refletir um pouco no capítulo 5 de Atos, na parte narrativa que fala sobre a história de Ananias e Safira. Do versículo 1 ao 11, Lucas narra um exemplo do que Deus precisou fazer para despertar o temor no início da igreja primitiva. Muitas indagações e perguntas, são feitas sobre o ocorrido, mas de qualquer forma, precisamos entender que o casal recebeu uma justa retribuição como consequência de seu ato enganoso, vil e profano. Quais as implicações praticas, e quais as lições que podemos aprender hoje? Bom, na última parte desse artigo, pretendo responder, mas a princípio, podemos nos lembrar as palavras paulinas em Gálatas 6.7, “não vos enganeis: Deus não se deixa zombar. Portanto, tudo o que o homem semear, isso também colherá.

Infelizmente, vemos em nosso tempo que muitas pessoas na igreja fazem de tudo para obter o poder, o reconhecimento e o prestígio. Isso é muito perigoso! Na verdade, esse padrão de conduta é mundano e não se encaixa nos princípios bíblicos. Leia Provérbios 21.28 e 1 Timóteo 4.2. Para entendermos melhor o contexto, precisamos considerar algumas coisas.

A voluntariedade na igreja primitiva

Percebemos que naquele tempo, não existia um padrão ou uma norma para contribuições financeiras. O que realmente contavam eram a generosidade e a voluntariedade. Tudo era compartilhado em comum, ninguém se sentia que era dono de coisa alguma, pois existia o espírito do temor. Naquela época assim como hoje, existiam pessoas que contribuíam com ofertas maiores, e talvez isso tinha uma repercussão mais estendida. De qualquer forma, precisamos entender que a igreja primitiva vivia em uma crença que Jesus logo retornaria.

Um fato importante, era o respeito e a admiração que o ofertante tinha perante os crentes. Isso é uma coisa normal e natural em qualquer época, mas não era um propósito. Quem ajudava, não buscava um reconhecimento perante os apóstolos e a igreja primitiva, isso nos faz lembrar de Barnabé. Já falamos sobre ele aqui no blog.

Barnabé, era um respeitado líder na igreja, um levita de nascença, era primo de João Marcos, que escreveu o segundo livro do NT que leva o seu nome. Lucas nos conta, em Atos 4.37, que Barnabé tinha propriedades em Chipre. O mesmo vendeu e depositou o dinheiro aos pés dos apóstolos.

Um plano bem sórdido e bem elaborado

Possivelmente, Ananias e Safira vendo a contribuição de Barnabé ou outros crentes e o devido reconhecimento, cobiçaram com um plano sórdido e bem elaborado a honra e o prestígio. Talvez, o casal era fiel a Deus e a Cristo e tinham um bom testemunho diante da comunidade cristã, mas eles não podiam deixar passar a oportunidade de serem conhecidos publicamente entre os apóstolos e a igreja.

Verdadeiramente, o diabo encheu o coração do casal de inveja e cobiçosa honra. Assim, venderam a propriedade que eles tinham, mas retiveram parte do preço, porém estavam contribuindo como se tivessem destinado todo o valor da venda. Ou seja, o casal concordou em mentir!

Atualmente, muita gente pensa como eles da seguinte forma. Essa mentira não vai prejudicar ninguém, vamos ajudar a igreja, vamos ter prestígio, honra e reconhecimento. Eles agiam pensando que não ia dar nada. Grande engano! Pois logo vieram as consequências.

Eles mentiram para Deus

Muitos pontos são levantados sobre a mentira de Ananias e Safira. Eles blasfemaram contra o Espírito Santo? Porque Deus os executou? O pecado deles foi muito grave? Por que pessoas mentem atualmente e não morrem?

Tentarei responder esses questionamentos rapidamente e de uma forma simples. Quando Ananias depositou aos pés dos apóstolos e da igreja sua contribuição, ele estava passando uma imagem de um bom homem, o que na verdade não era. Pois estava dando a entender que ofertava o valor integral ou total da sua propriedade.

Ele não tinha nenhuma obrigatoriedade de ofertar o valor total da sua propriedade, mas precisava ser honesto. O problema não era a oferta, mas o ofertante, o problema não era o valor, mas as motivações. Não houve blasfêmia nesse caso, nem sonegação, mas uma clara mentira contra o Espírito Santo, acerca daquele fato, o qual revelou a Pedro. Precisamos como crentes em Cristo, praticar os preceitos bíblicos, isto é, servir a Deus em verdade. O casal viveu oposto disso.

A falta de temor, a mentira, o engano foram coisas repugnantes aos olhos de Deus. Ananias e Safira, ignoraram que Deus vê tudo, sabe tudo e conhece tudo. Ele é onisciente. Muita gente hoje em dia fala sobre evitar o pecado para não entristecer o Espírito Santo, mas esquecem que o pecado é uma afronta e um insulto.

A mentira e o engano, serão a causa e os fatores preponderantes, nos quais muitos crentes irão para a perdição e para o inferno. Entenda caro leitor, a verdade é uma coisa oposta a mentira, e o nosso Deus é a própria verdade.  Ananias e Safira, procuraram coisas boas pelos motivos errados. Faziam a coisa certa que era o contribuir, mas com intenções sórdidas. E Não imaginavam a gravidade de afrontar Deus e sua obra.

As consequências da mentira

Todo pecado gera consequências. É a lei da semeadura que abordamos no início. Em Atos 5. 3, Pedro diz: Ananias, por que Satanás encheu o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo? Ele não estava mentindo a Pedro ou a Igreja naquele momento e isso pareceu grave. Diante de tais exortações, se Ananias caísse tonto ou desmaiado já seria um castigo horrendo e causaria temor, imagine ele caindo e expirando, por isso ninguém ousou dizer coisa alguma, apenas presenciaram com temor e calados o que acontecera.

Imagine, se um líder cristão, ou um pastor fizesse coisa semelhante hoje em dia. Talvez ele seria taxado de radical, fanático ou muito severo. Porém, o servo de Deus só amaldiçoa aquele que Deus amaldiçoa. Caso contrário, a sentença não surtiria efeito.

A esposa e cúmplice de Ananias, compactou em tudo com seu marido no plano de tentar enganar a Deus, mas ela também pagou muito caro. Por causa do temor e da gravidade do que ocorreu com seu marido, Safira talvez ficou sem saber o que aconteceu com seu marido.

Porém, quando ela se deparou Pedro, após três horas, o apóstolo a indagou da mesma forma que o marido, e com as mesmas perguntas. Diz-me, vendestes por tal quantia aquele terreno? E ela respondeu: Sim, foi por essa quantia. Ela repetiu o mesmo valor dado pelo marido e Pedro a repreendeu severamente, e assim como Ananias, Safira morreu.

Lições aprendidas

A primeira lição, é o temor que pairou sobre todos. Os crentes, ficaram atemorizados com o que ocorreu com o casal. Aqueles que não participavam da igreja, também ficaram sabendo das notícias. Ninguém comentava nada contrário, mas hoje em dia? Distante de tais fatos pelo tempo, teria Deus sido tão severo?

Temos que entender, uma coisa fundamental. A mentira, é uma violação dos princípios divinos, que em outras ocasiões, Deus pode até mostrar uma certa tolerância, mas penso eu que nesse caso em particular, o casal sabia o que estava fazendo, e com tais atitudes estariam manchando a igreja que estava em seu início e pós-nascedouro. Deus em sua soberania não tolerou e provocou a morte de Ananias e Safira para servir como exemplo a todas as gerações da igreja de Cristo.

A segunda lição, é a que não devemos agir como se Deus não nos visse. Deus é amor e graça, mas é soberano e um justo juiz. Ele é onisciente. Aqueles que usam de engano, não servem a Deus e nem podem permanecer na congregação dos justos. Nadabe e Abiú, são um exemplo claro disso.

A terceira lição, seria que não devemos pensar que podemos nos esconder de Deus. Muitas pessoas, se escondem debaixo de um falso manto de piedade, santidade e de religiosidade, querendo parecer bons aos olhos dos homens e da igreja. Muita gente faz isso, inclusive obreiros, que usam o púlpito para ensinar e pregar a palavra, mas interiormente Deus, que sonda nossos corações, os vê cheios malícia. Para Deus, não existem capas, isto é, tudo ele revela e esclarece.

Conclusão

Muitas, são as lições, que aprendemos com esse relato bíblico. A igreja contemporânea precisa ler e reler Atos capítulos 4 e 5 para compreender como eram as coisas inicialmente. Como estamos distantes daqueles tempos! O poder, o status, a vida boa, o reconhecimento e a aceitação social são as coisas que a maioria dos crentes querem. Poucos querem servir e viver uma vida de verdade e de honestidade diante de Deus e dos homens.

Podemos até esconder nossas reais intenções, assim como o casal Ananias e Safira por algum tempo, mas será que escaparemos ante olhar perscrutador de Deus, que são como chamas de fogo? Para Deus dia e noite não são a mesma coisa? Quem é que pode escapar de suas mãos? Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

Encerro por aqui, Deus abençoe a todos!

Fontes: Revista jovens e adultos, dominical, Atos dos Apóstolos – apregoando valores e testemunho que devem nortear a igreja atual. 1 trimestre de 2011, ano 21, número 78. Editora Betel.

Bíblia Sagrada – Almeida Século 21. 2 edição revista e atualizada conforme o novo acordo ortográfico. Editora Vida Nova.

Tolerar o fraco na fé: um dever cristão

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Por Carlos Roberto

Caro leitor, pensar em si mesmo, ser orgulhoso e acreditar que o mundo gira em torno de si, são fatores preocupantes na vida do ser humano no que tange aos seus relacionamentos. Ora, as velhas desculpas são as mesmas: Não tenho tempo para isso, não me importo, não quero, etc.  De qualquer forma, a verdade está logo aí, ou seja, no mundo atual em que nós vivemos, muitas vezes não queremos nos relacionar com o próximo e ajudar quem realmente precisa de um ombro amigo ou de uma ajuda.

Esse problema, não é novo e está longe de uma solução, e quando olhamos para a igreja, vemos a grande problemática do orgulho nas fileiras do cristianismo antigo e moderno. O capítulo 14, da carta de Paulo aos Romanos é um exemplo claro disso. O cerne da questão é o seguinte: Tolerar o fraco na fé. Para muita gente, isso não importa ou não interessa, mas o dever de ajudar quem realmente precisa é uma tarefa de todo cristão comprometido com o senhorio de Cristo.

Pretendo dividir esse artigo em pelo menos duas partes, para tentar dar minha contribuição ao entendimento do capítulo 14 da epístola paulina a igreja de Roma: Questões textuais e exegéticas e questões devocionais e práticas.

Questões textuais e exegéticas

No que tange as inúmeras versões da bíblia, aprecio a versão Almeida Século 21, do texto bíblico. Vejam Romanos 14.1: “Acolhei o fraco na fé, mas não para debater opiniões” [1]. Quem é o fraco no texto paulino? Bom, os teólogos e estudiosos bíblicos opinam sobre isso, nas mais variadas opções. John Stott, cita pelo menos quatro dessas opções em seu comentário:  1- Ex-idólatras, recém-convertidos do paganismo, 2- ascetas, 3- legalistas e 4- cristãos judeus.

O que nos interessa, é a última opção: Cristãos judeus. A concordância geral se encaixa neste grupo. Apesar deles (os judeus) estarem inseridos no corpo de Cristo e fazerem parte da comunidade cristã de Roma, lá pelo idos 57 ou 58 D.C, os costumes e a cultura judaica estavam presente em suas vidas. Regras com relação a dieta (Rm 14.14.20) e os dias religiosos (Rm 14.5) eram ainda a pratica de vida desses irmãos.

O que mais interessa neste artigo é questão dos fracos, mas para um entendimento melhor do contexto bíblico, é necessária uma rápida explicação de quem eram os fortes. Os fortes, eram os gentios que tinham se convertido a Cristo e entendido rapidamente a liberdade cristã, e por isso não precisavam cumprir os ditames e ritos judaicos para servirem a Cristo.

Infelizmente, muitos irmãos não entendem o capítulo 14 da carta paulina a igreja romana. O legalismo judaico, não era uma questão a ser resolvida aqui. Quando Paulo escreve aos Gálatas, o contexto era outro e totalmente diferente da igreja em Roma. Ao Gálatas, Paulo emite anátemas contra aqueles que tentavam ensinar outro evangelho, aos Romanos ele diz: “Quem come não despreze quem não come; e quem não come não julgue quem come; pois Deus o acolheu” (Rm 14.3).

O contraste situacional é bem evidente não é mesmo? As igrejas na região da Galácia, estavam propensas ao engano e a mentira do legalismo, e isso remetia a um afastamento do verdadeiro evangelho, já a igreja em Roma não estava em um conflito que comprometia a fé dos fracos, para um afastamento da mesma, pois Paulo diz que Deus acolheu o fraco. Como Deus iria acolher uma pessoa que ele amaldiçoou?

No que se refere a questões exegéticas, como entender o que é ser fraco no texto paulino? A palavra grega ἀσθενοῦντα (asthenounta) pode significar tanto uma enfermidade física, como espiritual (Lc 5.15; 1 Co 11.30) [2].O dicionário Strong, define essa palavra como: ser fraco, débil, estar sem força, sem energia e estar carente de recursos.  Muito pertinente, é o comentário de William M. Greathouse:

“Paulo começa com uma ordem abrupta: Quanto ao que está enfermo na fé (ton de asthenounta te piste), recebei-o. “Aquele que é fraco na fé, é aquele que não entende que a salvação é pela fé do princípio até o fim, e que aquela fé é garantida pela sua própria perfeição e intensidade, não por tímidos escrúpulos de consciência”. Apesar disso, os romanos deveriam receber (proslambanesthe) este crente temeroso em uma completa comunhão cristã. O verbo é frequentemente usado a respeito da graciosa aceitação dos homens por parte de Deus: se Deus recebe este homem hesitante, nós devemos fazer o mesmo. Godet destaca que o emprego que Paulo faz da partícula asthenounta, em lugar do adjetivo que significa fraco (asthene) indica alguém que é momentaneamente fraco, mas que pode tornar-se forte. Dentro da igreja ele pode chegar a uma compreensão mais adequada do evangelho, e assim passar a desfrutar a “completa certeza da fé” (Hb 10.19-23) ”. [3]

Questões devocionais e práticas

Relembrando o início deste artigo, podemos notar que em uma perspectiva bíblica, cristãos fracos e fortes devem viver em harmonia, em amor e principalmente no equilíbrio. É dever de todo crente em Cristo ajudar quem é débil na fé, é dever nosso ajudar quem adulterou, aconselhando essa pessoa com o devido cuidado e amor, é dever nosso perdoar, é dever nosso instruir o novo convertido.

Uma grande verdade, é que muitas vezes, os crentes julgam outros por causa dos seus erros e defeitos. Não deveria ser assim, mas infelizmente é. Uma grande perca de tempo, na minha humilde opinião é a velha briguinha por causa dos usos e costumes ou de alguma norma denominacional eclesiástica.

Apesar de nossos posicionamentos, opiniões ou condições no corpo de Cristo: Fracos ou fortes temos que entender nossa posição como servos de Cristo. Vejam só, o que John Stott diz sobre isso:

“Uma área em que essa distinção entre fé e amor deveria funcionar é na diferença entre aquilo que é essencial e o que não o é, em se tratando de doutrina e prática cristãs. Embora nem sempre seja fácil distinguir um do outro, uma diretriz segura é que aquelas verdades sobre as quais a Escritura fala claramente são essenciais; agora, sempre que cristãos igualmente bíblicos, igualmente ansiosos por entender e obedecer a Escritura, chegam a diferentes conclusões, estas devem ser consideradas questões não-essenciais. Muita gente vive se gabando pelo fato de que sua denominação é “bastante aberta”; tem espaço para qualquer um. Mas existem dois tipos de “abertura”: a que se baseia em princípios estabelecidos e aquela que não tem princípio algum”. [4].

Conclusão

Fracos ou fortes na fé precisam viver juntos e isso é o que importa! Não é uma tarefa fácil, mas a igreja contemporânea precisa entender isso de uma vez por todas. E com relação ao fraco na fé, que é incapaz de entender precisamos tolera-lo cumprindo nosso dever no corpo de Cristo.

A bíblia de estudo Aplicação pessoal traz uma reflexão muito interessante:

“Quem é fraco e quem é forte na fé? Todos somos fracos em algumas áreas, e fortes em outras. Nossa fé será forte em determinada área se pudermos sobreviver ao contato com pessoas mundanas sem nos deixar envolver pelos padrões delas; e será fraca em outra e tivermos de evitar certas atividades, pessoas ou lugares, a fim de proteger nossa vida espiritual. É importante fazermos uma avaliação, para descobrir nossos pontos fortes e fracos. Devemos perguntar-nos: “Será que posso fazer isso sem pecar?; “Posso influenciar os outros para o bem, sem me deixar influenciar pelo mal? “Nas áreas em que somos fortes, não devemos ter receio de ser pervetidos pelo mundo; devemos servir a Deus. Nas áreas em que somos fracos, precisamos ser cautelosos. Se tivermos uma fé sólida, mas a escondemos, não será possível fazer a obra de Cristo neste mundo; se expusermos uma fé débil, seremos extremamente todos”. [5]

Deus abençoe a todos os leitores, até o próximo artigo. Amém!

Fontes: [1] Bíblia Sagrada Almeida Século 21, Edições Vida Nova.

[2] José Gonçalves, Maravilhosa Graça – O Evangelho de Jesus Cristo Revelado na Carta aos Romanos, 1 Edição, CPAD, Página:126.

[3] William M. Greathouse, Comentário Bíblico Beacon, Volume 8, páginas: 173-174, CPAD.

[4] Série a Bíblia Fala Hoje – A Mensagem de Romanos, John Stott, Página: 239, Editora Abu.

[5] Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, CPAD.