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A letra mata! A exclusão da teologia no contexto evangélico e contemporâneo. (post atualizado)

A letra mata-

Por Carlos Roberto

Venho por meio deste texto tratar de um assunto muito sério e atual. É realmente preocupante, que ainda existam crentes que usam de todos os artifícios e citações bíblicas fora de contexto para afirmarem seus posicionamentos contra a teologia. Historicamente, o estudo teológico sempre foi visto com muita desconfiança na Assembleia de Deus e isso remete a distorções das Escrituras e como no caso em questão, as palavras de Paulo em sua segunda carta a igreja de Corinto.

Um problema histórico

Antes de explicar a interpretação correta da expressão a letra mata, e algumas características dos crentes que se comportam assim, rejeitando a teologia e o estudo bíblico, abordo o quesito histórico.

Em uma postagem anterior, expus o analfabetismo bíblico, como um fator preocupante na história da pregação assembleiana. Infelizmente, esse sempre foi nosso problema, o medo de perdermos nossa espiritualidade ou nossa comunhão com Deus por causa do estudo teológico.

Na AD, sempre houve líderes contra e a favor da teologia, com grandes debates acalorados em convenções e até artigos lançados nos principais periódicos editoriais como o Boa Semente, o Som Alegre e o Mensageiro da Paz, que é uma fusão destes dois. Segundo Clayton Pormmerening:

A visão positiva em relação à educação nas Assembleias de Deus no Brasil é um evento recente que começa a tomar forma e força, impondo-se sobre as compreensões e ideias contrárias até então presentes. Durante muitos anos, em sua fase de consolidação, houve forças contrárias à educação teológica formal, o que pode ter preservado esta igreja de algumas racionalidades que poderiam ter esfriado o movimento. Por outro lado, trouxeram prejuízos aos quais cabem reparos. Quais os principais fatores da rejeição teológica que este movimento enfrentou? Quem foram seus defensores e opositores? Quais discursos fizeram e fazem parte da disputa por racionalidade teológica e não racionalidade experiencial? [1]

Não é a minha intenção responder essas perguntas, pois isso requer muito tempo, e o escritor elenca em sua tese, ótimas respostas com fontes seguras. O melhor a fazermos hoje é refletirmos nos erros de nossos antepassados e encararmos a dura realidade de que levamos muito tempo para cair a ficha. Por causa de muito radicalismo, fanatismo religioso, inveja, conflitos de líderes e o uso da costumeira frase pejorativa fábrica de pastores, a AD perdeu e muito. Naqueles tempos, qualquer obreiro que estudava na tal fábrica de pastores corria sérios riscos. Claro isso era defendido pela turma que defendia que a teologia prejudicava o pentecostalismo e a vida espiritual. Para maiores informações sobre isso, cliquem aqui.

Interpretando a expressão bíblica a letra mata

A norma áurea, da hermenêutica e da exegese é essa: a bíblia explica a própria bíblia. O texto sem contexto é pretexto para heresias. Ora, 2 Coríntios 3.6 é um versículo isoladamente usado para afirmar que a teologia prejudica a vida espiritual do crente.

As epístolas paulinas, foram escritas dentro de um contexto de necessidades eclesiásticas e situacionais. 2 Coríntios, foi uma carta escrita para a defesa do apostolado de Paulo entre os anos de 55, 56 ou 57 D.C. Na ocasião da escrita, possivelmente Paulo se encontrava na Macedônia.

O capítulo 3, é uma explicação paulina da excelência e supremacia do ministério da nova aliança. A letra, palavra essa que Paulo cita, no versículo 6, não se relaciona com o estudo teológico. A própria vida de Paulo é oposta a isso! Paulo era um erudito, conhecia a fundo o hebraico, o grego e o aramaico, ele foi um judeu bem respeitado que estudou aos pés de Gamaliel, foi um dos principais fariseus e depois de convertido um dos doutores da igreja (At 13.1).

Seria muito estranho se o apóstolo dos gentios ensinasse uma coisa que não se encaixava em sua biografia e em sua vida não é mesmo?

Bom, e o texto? E jargão a letra mata? Tem respaldo bíblico? A resposta é um sonoro não! Não vou entrar nos pormenores exegéticos no momento, mas somente dar uma rápida explicação simples. Segundo a bíblia de estudo aplicação pessoal:

A frase “a letra mata, e o Espírito vivifica significa que tentar ser salvo mantendo as leis do AT terminará em morte. Somente crendo no Senhor Jesus Cristo uma pessoa pode receber a vida eterna por meio do Espírito Santo. Ninguém, exceto Jesus cumpriu a lei perfeitamente. Desde modo, o mundo inteiro está condenado à morte. A lei faz as pessoas perceberem seu pecado, mas não pode dar vida. Sob a nova aliança, que significa promessa ou acordo, a vida eterna vem do Espírito Santo. O Espírito dá um novo viver a todos os que crêem em Cristo. A lei moral (os Dez Mandamentos) ainda aponta os nossos pecados e nos mostra como obedecer a Deus, mas o perdão vem somente pela graça e misericórdia de Cristo (ver Rm 7.10 -8.2). [2]

Já deu para notar que isso não tem nada a ver com uma rejeição a teologia? Esse pessoal precisa ler mais a bíblia e frequentar a escola dominical

Os motivos do comportamento de alguns crentes atuais rejeitarem a teologia

Depois de abordar a questão da história e do versículo bíblico, usado por quem é contra a teologia, passo a explicar as causas comportamentais dos crentes de hoje em dia agirem assim, em uma rejeição ao estudo teológico. Neste ponto, não vou especificar muitas coisas, mas expor minhas próprias impressões pessoais.

A maioria dos cristãos, que rejeita, o curso de teologia ou o estudo bíblico, não leem a bíblia, não frequentam a escola dominical, não vão aos cultos de doutrina ou de ensino em suas respectivas igrejas ou congregações.

A grande realidade, é que esses “crentes”, são problemáticos, rebeldes aos seus líderes e pastores. Eles não querem dar o braço a torcer, não querem aprender nada, preferem ir ao monte orar e buscar a “espiritualidade”, eles preferem achar que estão sempre certos.

Por incrível que possa parecer, ainda tem muita gente assim na AD, e mudar a mente desse pessoal não é uma coisa fácil. Oremos!

Conclusão

O grande teólogo Jacó Armínio, que deu uma grande contribuição para a reforma protestante na Holanda no final do século XVI e início do século XVII, dizia que a finalidade da teologia era abençoar o homem. Quem dera, se todos os cristãos de hoje entendessem isso!

A demanda do discipulado teológico requer muita dedicação, os mitos e as fantasias contra o estudo teológico precisam cair por terra, e cabe a mim e a você caro leitor, essa honrosa tarefa. Cursos de teologia existem aos montes, as editoras também estão aí, com obras de Todo tipo de assunto. Talvez, o que realmente precisamos são iniciativas e objetivos bem estabelecidos. Seria muito pertinente, se todo pastor ou líder cristão incentivassem os crentes a estudarem a bíblia a teologia, mas infelizmente precisamos sermos realistas, isso não acontece.

De qualquer forma, eu louvo a Deus, pela vida de muitos irmãos, e maioria deles jovens, pessoas que talvez não sejam conhecidas nos altos escalões convencionais eclesiásticos, que são excelentes teólogos, são anônimos, mas estão no mesmo nível e patamar de muitos doutores, mestres e escritores. São inúmeros blogs, sites e páginas nas redes sociais, de crentes não conhecidos na perspectiva teológica literária que ajudam outros a compreenderem melhor os assuntos teológicos.

Encerro por enquanto esse assunto, mas é preciso debatermos mais essa questão, e tentar de todas as formas excluir essa tradição que ainda assola a AD, de que a teologia esfria o crente ou prejudica sua vida espiritual.

Deus abençoe a todos!

Fontes:

[1] Pommerening, Claiton Ivan. Tese de doutorado – Fábrica de pastores: interfaces e divergências entre educação teológica e fé cristã comunitária na teologia pentecostal (Escola Superior de Teologia/São Leopoldo).

[2] Bíblia de estudo aplicação pessoal, versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995. CPAD.

Características impressionantes do avivamento da rua Azusa

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Por Carlos Roberto

Muita coisa tem sido falada e discutida sobre o avivamento da Rua Azusa, e seu papel na história da igreja e do cristianismo. Vários livros relatam com precisão a ordem dos fatos relacionados Willian J. Seymour, pregador Afro-Americano, nas congregações de santidade em Houston. Na verdade, tudo começou no dia 1 de janeiro de 1901, em uma reunião de oração, onde Agnes Ozman, aluno de Charles, na faculdade Betel de Bíblia, em Topeka, Kansas, começou a falar em línguas. Diz a história que no decorrer da experiência espalhar-se por toda a escola, Parham, convenceu-se de que aquela glossolalia, ou línguas desconhecidas, era o que ele chamava de evidência bíblica do batismo no Espírito Santo. O que chama nossa atenção já no início do movimento pentecostal, é o seu contexto situacional, de um estudo em uma faculdade de teologia.

Fato esse que incomoda quem diz que a experiência do pentecostalismo no seu começo, foi um movimento de ordem emocional, sem ter uma experiência bíblica ou teológica. Não existem provas históricas, ou documentais, para tais afirmações. Na verdade, dentro do campo das ideias, no que tange as discussões na área pneumatológica, na história da teologia cristã, o evento ocorrido em Azuza é um marco, pois encerra esses debates, pois mostra uma leitura de Lucas-Atos, que não tem somente um caráter narrativo e histórico, mas doutrinal. E esse pensamento permeava os cristãos do início do movimento pentecostal. A leitura de Lucas-Atos se faz necessária hoje, para que todo tipo de preconceito teológico cai por terra. Automaticamente, nossa reflexão sobre esse assunto precisa trazer tempos de refrigério e renovação completa, com uma busca bíblica, e histórica sobre a vontade de Deus para o corpo de Cristo no que tange ao avivamento, remetendo também a um estudo sério da história verdadeira da igreja e do cristianismo, bem como uma exegese coerente.

Lermos somente Romanos, Gálatas, e Efésios, não pressupõe uma leitura correta para uma teologia do Espírito Santo. Temos que ver, como a teologia Lucana oferece um panorama melhor complementando o que Paulo disse, para uma revitalização da igreja, com uma direção do Espírito Santo. Ora, uma coisa impressionante sobre o avivamento da rua Azusa é sua contribuição, tanto histórica, como social, e teológica. Do ponto de vista histórico vemos Seymour, e Parham, como fundadores do movimento pentecostal, e do pentecostalismo.

No âmbito social vemos vários problemas relacionados ao racismo, perseguição por parte de muitos da sociedade daquela época. E só para constar, as perseguições eram praticadas por “cristãos” e não cristãos. Ainda sobre as questões relacionadas as perseguições, vale ressaltar, que aqueles outros “cristãos”, que não faziam parte do movimento pentecostal em seus primórdios, agiam com preconceitos, no que tange a considerar o pentecostalismo uma loucura. Já a ênfase teológica, do avivamento da rua Azusa, é impressionante, justamente por uma mudança de paradigmas. Ora, o falar em línguas tornou-se global, mundial e contínuo. Para o movimento pentecostal, a intensa convicção na eminente segunda vinda de Cristo, era tão importante quanto a ênfase no falar em línguas.

Fontes: James L. Garlow, Deus e seu Povo, a História da Igreja Como Povo de Deus, Páginas: 308-309. Editora: CPAD.

Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, Uma História da Igreja Cristã, Página: 514, Editora Vida Nova.

Pregadores: a banalização do evangelho nas alas assembleianas

Pregador-

Por Carlos Roberto

O que é realmente pregar a palavra de Deus? Essa pergunta não é tão fácil de responder pela maioria dos cristãos atuais. Ora, o cristianismo do nosso tempo tem uma noção muito equivocada do que é um sermão ou uma pregação bíblica, e quando olhamos o pentecostalismo brasileiro, e mais especificamente algumas alas assembleianas, a coisa complica ainda mais. Banalizar, é uma palavra fundamental para o que vem ocorrendo no entendimento do que é ministrar a palavra de Deus.  Em qualquer dicionário, o significado da palavra banalização, se refere a desvalorização de um determinado assunto ou tema. Na pratica é assim: Era uma coisa ou algo que tinha importância e deixou de ter.

A pregação bíblica, em nosso cotidiano atual se tornou banalizada, e isso para muita gente na igreja é comum, ninguém liga ou se importa. O conformismo tomou conta da vida dos cristãos, e pouca gente analisa, critica ou refuta esse comportamento.

Não é isso que muitos pregadores têm feito? Não se engane caro leitor! É comum nos dias hodiernos vermos um “pastor” ou “pregador” pregarem uma mensagem que torce ou fere os princípios bíblicos. Atos como a simplicidade do pregador, fidelidade ao texto escriturístico, falar a verdade e não agir para se promover, são coisas raras hoje em dia.

Tempos atrás, em um grande evento que reúne muitos crentes, e “pregadores” para angariar fundos financeiros para a obra missionária, um famoso pregador neopentecostal disse que para criar o homem Deus usou: “Espírito, como o dos anjos; alma, como dos animais irracionais; corpo (terra), como dos animais irracionais.”

No mesmo evento, mas em uma data bem anterior, um outro “pregador”, disse que: Jesus era rico e possuía uma casa de praia em Cafarnaum. É impressionante, a audácia dos tais pregadores, engando o povo e pensando somente em si mesmos. Bom, pretendo neste texto listar alguns fatores, que na minha opinião remetem as causas da banalização do evangelho nas alas assembleianas.

Analfabetismo bíblico

Não é nenhuma novidade a ênfase do carisma e a recusa da racionalidade teológica na história da AD. O Mensageiro da Paz, jornal oficial das Assembleias de Deus, do ano de 1931 aborda a questão dos seminários teológicos para pregadores de uma forma bem interessante:

“O melhor seminário para o pregador é o de “joelhos” perante a face do Senhor. Ali o Espírito Santo nos transmite os mais bellos e poderosos sermões. Alleluia! S. Pedro não foi formado por nenhum seminário”. (Mensageiro da Paz, 15/09/1931, mantida a grafia original)

Na minha opinião, a principal causa da banalização do evangelho nas alas assembleianas se dá pelo analfabetismo bíblico e pela radicalização de nossos líderes no início do movimento pentecostal brasileiro. Segundo Gedeon Freire de Alencar:

“No Brasil, o pentecostalismo nasceu, cresceu, consolidou-se e tornou-se majoritário, sem educação teológica formal; por isso ela ser vista como desnecessária. Aliás, mais do que desnecessária, ela era olhada – e para alguns ainda é – com suspeição”.  “Ao longo de seus primeiros anos de vida, as ADs não tiveram institutos bíblicos, seminários ou faculdades – e não sentiram falta deles. A formação dos obreiros se dava exclusivamente pela prática. Prática experiencial, comprovadamente eficaz. Tão eficaz que a igreja nasceu, cresceu e se consolidou sem a educação formal ou sem a “fábrica de pastores”. [1]

Deixo claro, que não pretendo intelectualizar a pregação bíblica na vida de meus irmãos assembleianos, mas tenho o entendimento que aquele que é chamado por Deus para ministrar a palavra precisa se dedicar, orar a Deus, ler a bíblia, estuda-la com afinco, fazer um curso teológico, etc.

Ora, em muitos locais o pensamento radical ainda é assim, e o conhecido jargão: A letra mata, permeia a vida de muitos irmãos em Cristo, que infelizmente ainda não compreenderam o que realmente é estudar a bíblia.

Para encerrar esse ponto, deixo um link, de um ótimo artigo, do blog Memórias das Assembleias de Deus, sobre o pastor Cícero Canuto, e sua oposição ao ensino teológico. Clique aqui.

A imitação sem personalidade própria

A cultura da imitação, é a meu ver uma outra característica da banalização do evangelho nas alas assembleianas. A maioria dos pregadores que vem surgindo não tem personalidade própria e estilo. Muitos só sabem imitar ou repetir o que os pregadores de outrora dizem, falam ou pregam.

Conhecidíssimos, são os pastores e pregadores pentecostais: Geziel Gomes, Napoleão Falcão e Gilmar Santos. Eles fizeram história na pregação pentecostal no Brasil! Vários aspirantes ao ministério da pregação bíblica, seguem o exemplo destes homens, até aí tudo bem, seguir o exemplo de uma vida dedicada a Deus é uma atitude louvável, mas quando partimos do pressuposto de imitar, fazer igual ou ainda tentar falar do mesmo modo a coisa complica.

Infelizmente, muitos irmãos, obreiros e até pastores, que se esmeram na pregação bíblica não tem personalidade, e no momento de suas ministrações imitam as falas e até o tom de voz dos pregadores citados acima.

O pregador do evangelho, que ministra a palavra, precisa ter seu próprio estilo, e não ficar à mercê de imitar ou repetir o que outros dizem. Falar pausadamente, ou de uma maneira mais enérgica são características próprias do ser humano, e aproveitando o gancho, deixo claro que a ideia que muitos pregadores têm de eloquência não tem nada a ver com gritos. Qualquer livro ou manual de homilética, diz que a eloquência é o convencimento do público mediante o sermão ou a palestra.

Encerro esse ponto dizendo que aquele que prega a bíblia precisa ter seu estilo, personalidade própria e não ser um imitador.

As influências do Neopentecostalismo

É preocupante a entrada do neopentecostalismo na AD. Muitos cultos, ditos pentecostais, são uma mistura de diferentes coisas. Hoje se prega ter o carro importado, a benção, o apartamento e a vida boa.

A igreja sofre com a banalização da pregação e da fé. O evangelho, para muitos “pastores” e “pregadores” é um grande negócio. As pregações atuais são um verdadeiro show e um espetáculo midiático. O entretenimento é o que vale e não a meditação e reflexão no momento da liturgia.

“Na realidade, esse processo de ‘neopentecostalização’ que não é inevitável, já vem ocorrendo em algumas denominações. Fenômeno indisfarçável no Evangelho Quadrangular e Nova Vida, que, genealogicamente, pertencem ao deuteropentecostalismo, mas que vêm, a passos largos, se aproximando da configuração típico-ideal da vertente neopentecostal. Mesmo no protestantismo histórico nota-se toda sorte de apropriação de doutrinas e práticas antes restritas quase que tão-somente no circuito neopentecostal. Já a Assembleia de Deus, desde 1989 cindida em duas denominações, mostra-se mais flexível e disposta a acompanhar certas mudanças que estão se processando no movimento pentecostal e, apesar da defasagem, na sociedade, seu recente e deliberado ingresso na política partidária e na TV, em busca de poder, visibilidade pública e respeitabilidade social, ao lado de outras transformações internas, sinaliza de modo irrefutável sua tendência à acomodação social, à dessectarização”.  [2].

“O acirramento da concorrência religiosa tem provocado mudanças significativas em praticamente todos os atores do campo religioso protestante e pentecostal no Brasil” [3].

Para concluir esse ponto, podemos notar que o cristianismo atual de uma certa forma é uma mistura de inovações que remetem a uma banalização do evangelho. Antigamente, as pregações eram reflexivas, pautavam por temas como a graça de Deus, a justificação, a santificação e a volta de Cristo, mas hoje se prega uma mensagem neopentecostal, com jargões triunfalistas e com ênfases para o ganho nesta vida.

Conclusão

A banalização do evangelho, nas alas assembleianas, e no próprio protestantismo brasileiro é um problema crítico e preocupante, e as causas são muitas. Neste texto, foco mais a questão dos nossos púlpitos e de nossas pregações. O analfabetismo bíblico e teológico, juntamente com o comportamento da nossa geração atual de imitadores sem personalidade, que só sabem repetir o que outros dizem e as influências do neopentecostalismo, são a meu ver as razões principais dessa mistura sincretista e perniciosa. Tomara que nossas lideranças acordem e não convidem mais esses charlatões e falsos profetas, que só sabem banalizar e perverter a fé de muitos irmãos, mas para que isso aconteça, cabe a cada um de nós fazermos nossa parte, orando a Deus e estudando a palavra.

Fontes: [1] ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

[2] MARIANO, Ricardo. Neopentecostalismo: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.

[3] Costa, Moab César Carvalho. Mudança de ethos do pentecostalismo clássico para o neopentecostalismo. Estudo de caso: A Assembleia de Deus em Imperatriz-MA. Pontifícia Universidade Católica de Goiás, departamento de filosofia e teologia – Dissertação de Pós-graduação Stricto Senso em Ciências da Religião.

Prefácio do livro Pentecostalismo e Pós-Modernidade

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Estimado leitor, tens em mãos uma obra rica. O pastor César Moisés brindou-nos com um texto que foi gerado ao longo das últimas décadas e que suscitou no próprio autor, via pesquisa e processo autocrítico, um amadurecimento de ideias e propostas singulares. A começar da apresentação da obra, em que o autor relata seu testemunho e deixa claro sua perspectiva, é possível vislumbrar a riqueza do conteúdo a partir do ethos pentecostal, que se concretiza à medida que avançamos na leitura dos capítulos. Na segunda parte, a reflexão está inserida em uma nova fase como o próprio autor indicou na aguçada introdução. Somos conduzidos a um clímax nessa reflexão mais ampla, que se mostrou um fio condutor ao longo da obra, como a guiar o leitor para passos mais ousados.

A teologia pentecostal brasileira está dando claros sinais de uma vitalidade e versatilidade incríveis. Durante muitas décadas, escutamos que os pentecostais não tinham teologia ou que sua leitura bíblica era meramente literalista e demasiadamente simplista. O jeito pentecostal estava fora dos cânones do típico protestantismo. Mas isso não quer dizer que não fizemos teologia antes. Ao contrário, era a forma de teologizar pentecostal que era negada por uma mentalidade exclusivista de labor teológico. Com o advento da pós-modernidade, outras formas religiosas tiveram voz e adquiriram espaço no cenário religioso nacional. Na verdade, a hegemonia de uma forma de fazer teologia foi definitivamente rompida.

Diante desse novo cenário, havia duas opções para os pentecostais. Uma era assimilar o jeito tradicional de fazer teologia baseado na tradição ou na ortodoxia reformada. Tal expediente estava demasiadamente dependente da cognição e de uma racionalidade cartesiana típica do ocidente. Com isso, os pentecostais que tiveram contato com o mundo da reflexão teológica se inclinaram a recuperar os clássicos como uma forma de identidade protestante. Nesse afã, redescobriam Calvino, Armínio e tantos outros, reaquecendo debates antigos da teologia. Tais controvérsias estavam no passado, mas para alguns ainda hoje é tema atual, como se isso fosse fazer teologia substancial. Cair nessa cilada é perder a oportunidade de fazer teologia relevante para nosso tempo. Além disso, essa maneira de fazer teologia não ajuda em nada o modo pentecostal de ser, pois não reconhece as categorias valiosas dos grupos pentecostais. Nesse sentido, os pioneiros pentecostais no Brasil tinham razão ao enfrentar uma educação teológica formalista que não contribuía para o exercício de uma pentecostalidade sadia.

A outra opção para os pentecostais é olhar para o nosso tempo, quer gostemos dele, quer não, e aprender a viver neste mundo. Em vez de se enclausurar em um gueto e ficar atirando pedras em tudo que diz respeito ao mundo pós-moderno, que possa discernir novos caminhos ou novas formas de ser no mundo. Nem voltar a um racionalismo reducionista nem assumir acriticamente os postulados da pós-modernidade. Trata-se de uma opção que exigirá discernimento. Por exemplo, a pós-modernidade valorizou a experiência como categoria, como critério de verdade. Logicamente as formas tradicionais de fazer teologia negarão a pós-modernidade nesse aspecto. Mas e os pentecostais? Não precisam negar. É justamente aqui, na experiência, no afeto, no sentimento, que o pentecostalismo melhor se expressa. Portanto, o pentecostal que nega a pós-modernidade sem mais, não estará fazendo teologia pentecostal, mas uma forma clássica de teologia. Não é pelo fato de ser um pentecostal que escreve que estamos diante de uma teologia pentecostal. Vemos muitos desses discursos hoje na mídia. Pentecostais deslumbrados com teologias datadas na história (relevantes no seu tempo, mas talvez ultrapassadas para hoje) dedicam-se a repetir os manuais de teologia. Fazer teologia exige pensamento crítico e criatividade. Como teólogos, temos responsabilidades com nosso tempo.

Este livro do pastor César Moisés é uma clara demonstração dessa segunda via. Profundo conhecedor da literatura sobre o tema — basta olhar as notas de rodapé e as muitas obras listadas na bibliografia —, descreve, critica e propõe, avançando de uma mera repetição de conteúdos para a fundamentação de uma clara posição. Esperamos que a leitura desta obra ajude os diferentes leitores/as a perceberem essa maioridade teológica pentecostal. Estamos avançando muito e rápido. Oramos para que novos autores se levantem no meio pentecostal e que sejam vozes criativas e bem fundamentadas, além de contribuírem para o fortalecimento da perspectiva pentecostal, não só para os pentecostais, mas também para os demais cristãos. O pentecostalismo já foi o “irmão mais novo” e dependeu muito de outras tradições cristãs. Mas agora o pentecostalismo amadureceu e também tem algo a ensinar aos demais irmãos. Afinal, somos todos instrumentos nas mãos do Espírito Santo. Que fale o Espírito por nosso intermédio neste novo mundo pós-moderno.

Pr. David Mesquiati de Oliveira

Doutor em Teologia (PUC-Rio), pós-doutor em Teologia (EST e PUC-Rio), docente da graduação e do Programa de Mestrado da Faculdade Unida em Vitória (ES), presidente e coordenador, no Brasil, da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), da Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais (RELEP), do Fórum Pentecostal Latino-Americano e Caribenho (FPLC), além de ser membro do Comitê Diretivo na FTL Continental, vice-coordenador continental da RELEP, membro do Comitê Geral do FPLC, líder da Assembleia de Deus, “Comunidade Glória”, em Vila Velha e secretário de Missões da Convenção Evangélica dos Ministros das Assembleias de Deus do Estado do Espírito Santo (CEMADES).

Fontes: Pentecostalismo e Pós-Modernidade – Quando a Experiência Sobrepõe-se a Teologia. César Moisés Carvalho. 1 edição, CPAD. Rio de Janeiro. 2017. Páginas: 17-19.

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