Arquivo da categoria: arminianismo

Resenha do Livro: Arminianismo – A Mecânica da Salvação, de Silas Daniel

silas

Por Carlos Roberto

Essa obra literária, chegou em um momento muito pertinente. O autor, é o pastor Silas Daniel, que é conferencista e jornalista, e há tempos, vem escrevendo sobre a teologia arminiana. O grande destaque, desse novo lançamento, é sua abrangência, conteúdo e notas.

Historicamente, o arminianismo no Brasil vem crescendo a cada dia.  Lembro-me, quando a editora Reflexão, traduziu e lançou o livro: Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, de Roger Olson. Foi um sucesso! Pois, muitos irmãos, até mesmo calvinistas e reformados, puderam ler e chegar à conclusão de que nossa crença tem fundamento.

Outro fato marcante na teologia evangélica brasileira, foi a tradução das Obras de Armínio para o português em 2015 pela CPAD. Com isso, o amadurecimento do pensamento soteriológico caminhou a passos largos. Agora, em 2017, somos presenteados com um novo livro sobre o arminianismo.

Outras editoras, como a Reflexão, tem um papel fundamental na divulgação do arminianismo clássico e wesleyano no Brasil, bem como teólogos e escritores, que são versados no tema. A obra, de Silas Daniel, veio somar juntamente com as outras.

Como afirmado acima, o grande destaque da obra, é sua abrangência, pois o autor, divide-a em três partes: História, teologia e exegese.

Antes, de falar, resumidamente sobre isso, abordo minha opinião sobre a introdução. “Ninguém é salvo por entender a mecânica da Salvação, mas por aceitar, pela graça de Deus, a mensagem e o método da Salvação”. Silas Daniel, enfatiza isso com maestria na parte das noções (prolegômenos), do que ele irá tratar no livro.

Muita gente, faz confusão com isso, e até misturam ou confundem os termos. Um crente, simples, não precisa saber o que é arminianismo para ser um eleito, mas o mesmo precisa conhecer a graça de Deus, que faz parte dos ensinamentos básicos do método da salvação. Portanto, essa verdade, abordada, elucida e esclarece o foco principal dessa obra literária.

A parte relacionada a história do arminianismo, começa nos Pais da Igreja Pré-Agostinianos, e vai até Wesley e o legado da teologia arminiana para a formação cultural e política do Ocidente. Daniel, me impressiona, com extensas fontes e notas, do que a tradição teológica antes de Agostinho pensava sobre livre-arbítrio, expiação, graça resistível e eleição.

Destaco também, ainda nessa parte histórica, a diferenciação, que o autor faz do Lutero jovem e do Lutero velho. As comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante estão logo aí, e é de suma importância saber, que o grande reformador, não ficou preso no passado, mas mudou de ideia com relação a Mecânica da Salvação.  A partir de seus últimos escritos, como o próprio Silas Daniel diz, podemos afirmar que Lutero: Cria em uma expiação Ilimitada; que um crente genuíno pode cair da graça; e na crença da depravação total, mas vendo, ao final o livre-arbítrio, mas como Agostinho o via do que como Calvino o via.

Na segunda parte, que trata as questões doutrinárias da teologia arminiana, destaco a sabedoria do autor ao expor teologicamente falando, a luz do próprio contexto da palavra de Deus, as seis correntes entre os proponentes do pecado original. Ao falar sobre a presciência divina, Daniel prova a luz da cosmologia moderna uma indicação de uma não predeterminação. O grande foco, é provar que Deus, não predetermina tudo. O autor, poderia somente falar sobre os 5 pontos do arminianismo, mas ele vai além e quando explica a depravação total, elucida como a imagem de Deus foi danificada em nós por causa do pecado. Ainda sobre isso, Daniel, cita as opiniões de Armínio e de Wesley sobre os efeitos da queda. Gostei muito dessas referências. O livre-arbítrio, para as coisas de Deus e para a salvação, no homem é defeituoso, e muitos crentes não sabem disso, mas o autor traz a lume uma explicação breve.

Quando Daniel, fala sobre a segurança em Cristo, responde se é possível um apóstata voltar à fé e ser salvo. Ele diz que depende, e dá entender biblicamente o motivo, pois não existe somente um caso. A apostasia comum e a do coração endurecido são elucidadas. O autor, fez muito bem abordar isso no livro.

Para encerrar essa parte teológica, parabenizo o autor, por seu equilíbrio e moderação. Não o vejo tratando os calvinistas como hereges. Quando Daniel, mostra as tendências de uma má compreensão da mecânica da salvação e responde a objeções comuns, diz que o liberalismo teológico não é uma peculiaridade ou muito menos uma tendência específica entre arminianos, calvinistas e luteranos.

Na terceira e última parte, que expõe a exegese e os textos bíblicos para uma abordagem da teologia arminiana, Daniel cita dois textos do Antigo Testamento e 9 do Novo Testamento. Há quem diga, que o final poderia ser mais amplo, ou seja, o autor deveria mostrar mais textos da bíblia para uma comprovação da teologia arminiana clássica.

Discordo, pois especificamente, o livro tem um objetivo forte e claro, que é apresentar uma exposição da graça de Deus e da responsabilidade humana no contexto bíblico e isso foi feito muito bem.

Bastante clara, é a evidência do contexto mediato e imediato do capítulo 9 de Romanos. Outra coisa que gostei, foi a explicação de Provérbios 16.4.

Para encerrar, recomendo a todos os meus leitores que se puderem, dentro das suas respectivas limitações, que adquiram essa obra, que traz uma gama de informações sobre o arminianismo, uma teologia antiga, dentro do contexto da história da igreja, e majoritariamente destacável desde os tempos da patrística pré-agostiniana, e teologicamente falando, essa vertente expõe um Deus, que é soberano mas que de maneira nenhuma determina tudo que acontece, e que a própria bíblia dá uma forte referência a isso.

Fontes: Arminianismo – A mecânica da Salvação: Uma exposição histórica, doutrinária, e exegética sobre a graça de Deus e a responsabilidade humana. Silas Daniel, 1 edição, CPAD, Rio de Janeiro, 2017.

Aos interessados, deixo o link do site da CPAD, para a aquisição da obra.

 

 

 

 

O perigo nos debates entre calvinistas e arminianos

Untitled design

Por Carlos Roberto

Caros leitores, a mecânica da salvação, é um tema debatido há séculos dentro do contexto protestante e cristão. Em um post anterior, falamos aqui no blog sobre a unidade cristã na perspectiva teológica de Jacó Armínio.

Agora, pretendo deixar um alerta sobre os riscos desse debate, quando a ignorância, a falta de respeito, a militância e o ego exaltado são normas que precisam serem seguidas à risca para uma melhor identificação, segundo os adeptos desses conceitos errôneos e desprovidos de uma coerência bíblica e sadia.

Calvinistas e arminianos, podem ser bons amigos, mesmo discordando e debatendo teologia, mas essa simples explicação, não é seguida à risca por muitos deles. No meu feed de notícias, presencio muitas vezes, arminianos xingando, desrespeitando e até ameaçando calvinistas em longos debates. Claro, existem calvinistas que são intolerantes também. Aliás, esse texto serve para ambos.

O ponto onde exatamente eu quero chegar, é justamente o da maturidade cristã. No meu modo de pensar, a imaturidade está muito presente na vida desses irmãos. Ora, todos sabem que sou um arminiano clássico, mas isso, não me dá o direito ou a prerrogativa de ser inimigo dos calvinistas e reformados.

Até mesmo entre defensores de um mesmo posicionamento teológico, existem os intolerantes, imaturos e zombadores. Se um arminiano, se posiciona ou se identifica como de 4 pontos, é taxado por seus companheiros de liberal ou herético, e tem também os calvinistas que adoram dizer que Armínio foi pelagiano ou semi-pelagiano, se um outro calvinista mais moderado, que leu as obras de Armínio e conhece bem os conceitos básicos da teologia arminiana discorda, é taxado de bobo, ou em cima do muro.

O grande perigo, nos debates teológicos, e principalmente entre calvinistas e arminianos, é falta de amor ao próximo. Discordar, faz parte da teologia e isso está longe de terminar, mas é preciso equilíbrio, koinonia, paciência, amor e maturidade.

Por causa dessas coisas, criei tempos atrás a página Armínio Hoje no facebook, para tentar compartilhar aquilo que sei para outras pessoas e provar, que esse sentimento popular do arminianismo contemporâneo e anti-calvinista, é perigoso e doentio. A teologia arminiana, não é somente defesa e ataque, muito pelo contrário, sua gênese e prioridade é o amor de Deus revelado na pessoa de Cristo e a atuação da graça de Deus, que restaura o arbítrio humano danificado pela queda.

Uma outra página, parceira e que segue a teologia de Armínio com responsabilidade e moderação, é a página Arminianismo Sem Zueira.

Enfim, todo cristão, que estuda teologia, precisa praticar a mesma, e não pensar que é melhor do que os outros somente por causa de sua forma de interpretar a bíblia ou assuntos pertinentes ou relacionados a ela. No passado, muita gente sofreu com isso, e hoje não é diferente, mas eu e você, somos exortados a mudar isso, através de atitudes honestas, maduras e respeitosas com nossos irmãos de fé, mesmo eles sendo de outras confissões ou posicionamentos teológicos.

Deus abençoe a todos! Em um momento oportuno, retorno novamente com esse assunto no blog. Compartilhe esse post com seu amigo calvinista ou arminiano.

Armínio e a unidade cristã

LargeArminiusStainedGlass

Por Carlos Roberto

Historicamente, Jacó Armínio foi muito perseguido por seus opositores. Ele foi acusado de muitas heresias e também lhe foi atribuída muitas inverdades. O que me impressiona realmente, é seu lado pratico de sua teologia.

Armínio, prezava pelo amor ao próximo e pela união dos cristãos, apesar das diferenças. Segundo Dave Hunt, “Armínio foi um cristão consistente em seus escritos, e gentil e atencioso em seu tratamento com os outros”. [1]

Uma prova disso, vemos em sua Declaração de Sentimentos. Apesar de discordar de Gomaro e seu supralapsarianismo, Armínio soube debater a questão da predestinação sem atacar.

Jacó Armínio, é um exemplo a ser seguido por todo teólogo atual, e principalmente, os arminianos. Uma grande verdade, que eu tenho notado, é que alguns, ditos arminianos clássicos, estão longe dessa perspectiva de unidade cristã de Armínio, simplesmente pelo fato da ignorância nos debates sobre a doutrina da predestinação.

Discordar, faz parte dos assuntos teológicos, mas precisamos praticar verdadeiramente nossa teologia, assim como Armínio fez. Finalizo esse breve texto, com um trecho, tirado das Obras de Armínio. Os arminianos atuais, bem como os calvinistas, precisam refletir sobre isso:

“Que Deus permita que concordemos plenamente nas coisas que são necessárias à sua glória, e para a salvação da igreja, e que, em outras coisas, se não puder existir harmonia de opiniões, pelo menos haja harmonia de sentimentos e possamos ‘guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz’”. [2].

Fontes:

[1] HUNT, DAVE. Que amor é esse? / Dave Hunt; [Tradução Cloves Rocha dos Santos e Wilson Sales da Silva]. 1. Edição – São Paulo: Editora Reflexão 2015. Página: 127

[2] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. (Volume 3). [Trad. Degmar Ribas]. Rio de Janeiro, CPAD, 2015, p.276).

 

John Wesley ensinava a depravação parcial?

download (2)

Por Carlos Roberto

A rede social é um local onde todo tipo de assunto é falado, comentado, curtido e compartilhado. No ano passado, postei na minha linha do tempo uma indagação com relação a um assunto altamente teológico, e que tem a ver com a soteriologia. Para os entendidos no assunto, todos sabem que a depravação total do ser humano é um ponto em comum entre calvinistas e arminianos. O post rendeu vários comentários, e irmãos de diferentes posições teológicas das minhas comentaram a postagem, contribuindo para um bom debate no campo das ideias.

No decorrer dos comentários do meu post na rede social, apareceram comentários de um irmão, que se dizia um representante do metodismo, afirmando absurdos, onde se via uma interpretação do mesmo com relação ao pai do metodismo ter enfatizado uma depravação parcial do ser humano. Bom, eu como vários amigos em comum fizemos o uso de argumentos respeitosos, e pedimos fontes seguras, e documentais, que John Wesley teria defendido uma parcial depravação humana.

Enfim, eu e nem muito menos meus amigos não obtivemos respostas, e o meu suposto amigo cancelou o contato, me bloqueou, e encerrou por definitivo o vínculo de amizade na rede social, e tudo isso simplesmente por não suportar que ele estava errado no campo das ideias. Sem perca de tempo, quero neste artigo citar fontes concretas, documentais, e históricas, que John Wesley, o pai do metodismo, que deu uma grande contribuição para a história da igreja, da teologia, e do cristianismo defendia a depravação total do ser humano. Eis as fontes:

“Sem dúvida, para enfatizar, Wesley continua esse tema da depravação total do homem em diversos outros escritos. Em seu “Way to the Kingdom” (O Caminho do Reino), observa no comentário: “Você é corrompido em cada poder, em cada faculdade de sua alma, por ser corrompido em cada um desses aspectos, toda a fundação do seu ser está fora de curso”. E no sermão The Deceitfulness off the Human Heart” (A falsidade do Coração Humano), a depravação aparece na observação de que “toda imaginação dos pensamentos de seu coração [é] só má continuamente”. Além disso, Wesley, no mesmo sermão, enfatiza que os homens e mulheres são incapazes de mudar essa condição: “No coração de todo filho de homem há um fundo inexaurível de maldade e injustiça, enraizado de forma tão profunda e firme na alma que nada, a não ser a graça todo-poderosa, pode curar isso””. [1]

“As Escrituras asseveram que “pela desobediência de um homem todos os homens foram constituídos pecadores”; que “em Adão todos morreram”, morreram espiritualmente, perderam a vida e a imagem de Deus: Que, pecador decaído, Adão então “gerou um filho à sua própria semelhança” —e nem era possível que o gerasse segundo outra qualquer imagem, porque, “quem pode tirar uma coisa pura de uma coisa impura? ” — Que, consequentemente, nós, como quaisquer outros homens, estamos por natureza “mortos em delitos e pecados”, “sem esperança e sem Deus no mundo”, e, portanto, somos “filhos da ira”; que todo homem pode dizer: “Fui gerado em iniquidade e em pecado minha mãe me concebeu”; que “não há diferença”, visto que “todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus”, daquela gloriosa imagem de Deus segundo a qual o homem fora originariamente criado. E daí, quando “o Senhor olhou do alto para os filhos dos homens, viu que todos se desviaram; que eles se tornaram todos abomináveis, não havendo nenhum justo, nem sequer um”, ninguém que verdadeiramente busque a Deus, concordando isto como que é declarado pelo Espírito Santo nas palavras acima citadas: “Deus viu”, quando olhou dos céus, “que a maldade do homem era grande na terra”; tão grande que “toda imaginação dos pensamentos de seu coração era somente má, e isto continuamente”. Este é o conceito de Deus acerca do homem, conceito que nos dará oportunidade de: Primeiro, mostrar, o que todos os homens eram antes do dilúvio; segundo, inquirir se eles não são os mesmos hoje; e, terceiro, acrescentar algumas inferências”. [2]

“Wesley confessava que todos os humanos (exceto Cristo) estão “mortos em Transgressões e pecados” até Deus chamar suas almas mortas à vida. De acordo Com ele, todas as “almas dos homens” estão mortas em pecado por natureza até mesmo se a graça preveniente universal de Deus estiver trabalhando neles. Em seu sermão “Acerca do Pecado Original” ele apresentou um testemunho sobre a condição caída da humanidade que deixaria qualquer agostiniano orgulhoso! Ele condenava a tendência moderna de enfatizar o “lado justo da humanidade” e argumentava que a humanidade, em sua época, não era nada diferente do que aquela anterior ao dilúvio nos dias de Noé – com nada de bom e totalmente má, exceto aquilo que é trabalhado pela graça de Deus. “Em seu estado natural, todo homem nascido no mundo é um indecente idólatra”. Ele chegou até o ponto de dizer, talvez homileticamente, que os humanos caídos portam a imagem do diabo e andam nos passos de satanás. Como alguém poderia ser mais claro acerca da condição humana em pecado enquanto totalmente depravada do que aquele que escreveu e disse: Aqui está o chibolete: É o homem, por natureza, cheio de toda forma de mal? Ele está vazio de todo o bem? Ele é totalmente caído? Sua alma está totalmente corrompida? Ou, para voltar ao texto, é “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração só má continuamente?”. Admita isso e você é, de longe, cristão. Negue isso, e você não é nada mais que um infiel”. [3]

Fontes:

[1] Teologia de John Wesley. Kenneth J. Collins. Pág.97. CPAD.

[2] Wesley, J., Sermon XLIV: Original Sin, in The Essential Works of John Wesley (2011: Barbour Publishing Inc.), p.128).

[3] Roger E. Olson, Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, Editora Reflexão, Páginas 193-194.

Breve biografia de Jacó Armínio

Arminius-2

JACÓ ARMÍNIO nasceu em Oudewater, uma pequena cidade perto de Utrecht, na Holanda, no ano de 1560. Seus pais eram pessoas respeitadas da classe média. Seu pai era um mecânico engenhoso que atuava no comércio como cuteleiro. Seu sobrenome era Herman, ou, segundo alguns, Harmen. Como era de costume aos homens daquela época, que latinizavam os seus próprios nomes, ou os substituíam por nomes latinos que se adequassem mais a eles no som ou no significado, Armínio escolheu o nome do líder célebre dos alemães do início do primeiro século. Enquanto Armínio ainda era uma criança, seu pai morreu, e ele, juntamente com um irmão e uma irmã, foi deixado aos cuidados de sua mãe viúva. Theodore Aemilius, um clérigo de piedade e educação distintas, que na época residia em Utrecht, familiarizou-se com as circunstâncias da família e encarregou-se da educação da criança. Armínio residiu com esse homem excelente até seu décimo quinto ano, quando a morte o privou de seu patrono. Durante esse período, ele exibiu traços incomuns de genialidade, e foi inteiramente instruído nos elementos da ciência e, em particular, nos rudimentos das línguas latina e grega. Ele foi levado a dedicar-se ao serviço de Deus, e tornouse, embora muito jovem, um exemplo de homem piedoso.

Nessa época, Rudolph Suellius, natural de Oudewater, morava em Marpurg, em Hesse. Rudolph mudou-se para Marpurg a fim de afastar-se da tirania dos espanhóis. Ele era um homem de grande renome no ensino da matemática e das línguas. Ao visitar sua terra natal, Rudolph familiarizou–se e se interessou por seu jovem conterrâneo, e o convidou a ir a Marpurg, sob seu próprio patronato. Armínio o acompanhou, mas, pouco depois de iniciar seus estudos na Universidade, recebeu as notícias pesarosas de que a sua cidade natal havia sido destruída pelo exército espanhol. Ele voltou para a Holanda, e encontrou seus piores medos realizados: sua mãe, seu irmão e sua irmã estavam entre as vítimas da matança indiscriminada que ocorreu após a captura da cidade. Ele refez seus passos tristemente em direção a Marpurg, fazendo a viagem toda a pé.

Durante o mesmo ano (1575) foi inaugurada a nova universidade holandesa em Leiden, sob os auspícios de Guilherme I, Príncipe de Orange. Assim que Armínio soube que a nova instituição havia aberto as portas para a admissão de alunos, preparou-se imediatamente para voltar para a Holanda, e logo ingressou como estudante em Leiden. Ele permaneceu ali durante seis anos, ocupando a mais alta posição no conceito de seus instrutores e de seus colegas estudantes. Ao término desse período, em seu vigésimo segundo ano, Armínio foi recomendado para as autoridades municipais de Amsterdã como um jovem de grande promessa para a utilidade futura, e especialmente digno de seu patronato. Essas autoridades assumiram imediatamente as custas da conclusão dos estudos acadêmicos de Armínio, enquanto Armínio, por sua vez, deu-lhes um título escrito, no qual se comprometeu a dedicar o resto de sua vida, após a sua admissão às Ordens Sacras, ao serviço da igreja naquela cidade, e a não se envolver em nenhum outro trabalho e não ocupar nenhum outro cargo sem a sanção especial dos burgomestres.

Ele foi imediatamente para Genebra, sendo atraído para lá principalmente pela reputação do célebre Beza, que na época estava ministrando naquela Universidade. No entanto, Armínio permaneceu ali durante pouco tempo, pois foi ofendido por alguns dos professores por defender Ramus e seu sistema de dialética em oposição ao sistema de Aristóteles. Ele então se retirou para a Universidade da Basileia, e residiu ali por um ano, durante uma parte do qual, como era de costume para os melhores alunos de graduação, ministrou aulas expositivas sobre temas teológicos, tendo como base o curso universitário comum. Por essas e outras exposições de sua erudição, Armínio adquiriu grande reputação, e, na véspera da sua partida da Basileia, a faculdade de Teologia da Universidade da Basileia ofereceu-lhe o título e o diploma de Doutor. Ele recusou esse título modestamente, alegando, como motivo, sua juventude. O sentimento despertado contra ele na Universidade de Genebra por conta de sua adesão à filosofia de Ramus diminuiu de forma considerável. Ele então retornou para aquela universidade, e permaneceu ali durante três anos, dedicando-se ao estudo da divindade.

No final desse período, vários de seus jovens compatriotas que também estavam estudando em Genebra partiram rumo a uma excursão pela Itália. Armínio decidiu fazer uma excursão semelhante, e foi particularmente inclinado a realizar a viagem pelo desejo de ouvir James Zabarella, que naquela época era um professor de Filosofia da Universidade de Pádua, altamente distinto. Ele permaneceu em Pádua durante um curto espaço de tempo, e também visitou Roma e alguns outros lugares da Itália. Essa viagem foi consideravelmente vantajosa para ele, uma vez que lhe proporcionou a oportunidade de familiarizar-se, através da observação pessoal, com o “mistério da iniquidade”. Além disso, pode explicar o zelo e o vigor com os quais Armínio se opôs posteriormente a muitas das doutrinas e pressupostos do papado. No entanto, a excursão foi temporariamente prejudicial para Armínio, tendo em vista que ele incorreu no desagrado de seus patronos, isto é, o Senado de Amsterdã. É provável que esse descontentamento tenha sido originado e intensificado por algumas pessoas perversas que deturparam gravemente as motivações de Armínio ao visitar a Itália. Mas tudo isso caiu por terra através das declarações de Armínio em seu retorno à Holanda, no outono de 1587. No início do ano seguinte, depois de um exame perante a Classe de Amsterdã, Armínio foi licenciado para pregar, e a pedido das autoridades da igreja, iniciou o seu ministério público naquela cidade. Seus esforços no púlpito foram recebidos com muita predileção, de modo que ele foi chamado, com unanimidade, para o pastorado da igreja holandesa em Amsterdã, tendo sido ordenado no décimo primeiro dia de agosto de 1588.

Certas circunstâncias ocorreram durante o ano seguinte, fatos que, em seu resultado, exerceram uma grande influência sobre os pontos de vista doutrinários de Armínio, e no final conduziram Armínio a adotar o sistema que leva seu nome. No ano de 1578, Coornhert, um homem profundamente religioso, e que havia prestado serviços importantes ao seu país e à Reforma, colocando sua própria vida em risco, em uma discussão com dois ministros calvinistas de Delft, atacou os pontos de vista peculiares de Calvino sobre a Predestinação, a Justificação e a punição dos hereges com a morte de forma magistral e popular. Ele então publicou seus pontos de vista e defendeu uma teoria substancialmente conhecida posteriormente como a teoria arminiana, embora parte de sua fraseologia não estivesse guarnecida o suficiente.

Seu panfleto foi respondido em 1589 pelos ministros de Delft, mas em vez de defender o ponto de vista supralapsariano de Calvino e Beza, que havia sido o objeto particular do ataque de Coornhert, eles apresentaram e defenderam as visões mais baixas ou sublapsarianas, e atacaram a teoria de Calvino e Beza. O panfleto dos ministros de Delft foi transmitido a Armínio por Martin Lydius, professor em Franeker, pedindo que Armínio defendesse o seu ex-preceptor. Ao mesmo tempo, o senado eclesiástico de Amsterdã pediulhe para expor e refutar os erros de Coornhert. Ele iniciou o trabalho imediatamente, mas ao pesar detalhadamente os argumentos a favor do ponto de vista supralapsariano e os argumentos em prol do sublapsarianismo, Armínio inclinou-se a este último, em vez de refutá-lo. Ao continuar suas pesquisas, Armínio dirigiu-se para o estudo mais diligente das Escrituras, e as comparou diligentemente com os escritos dos primeiros patriarcas e com os escritos de teólogos posteriores. O resultado dessa investigação foi a sua adoção da teoria particular da Predestinação que leva seu nome. Inicialmente, para o bem da paz, ele se reservou em suas expressões, e evitou fazer referências especiais ao assunto. Mas logo se convenceu de que tal padrão de ação era incompatível com o seu dever como professor religioso, e começou a testemunhar de forma modesta sobre a sua discordância com os erros recebidos, em especial em seus discursos ocasionais sobre essas passagens das Escrituras, que obviamente necessitavam uma interpretação que estivesse de acordo com os seus pontos de vista mais amplos sobre a atuação divina na salvação dos pecadores. Isso se tornou uma prática constante de Armínio em 1590.

Estando estabelecido há mais de dois anos no ministério em Amsterdã, Armínio se uniu em casamento a uma jovem de grandes realizações e piedade eminente, a quem, durante algum tempo antes, ele havia dedicado seus interesses. Seu nome era Elizabeth Real. Seu pai, Laurence Jacobson Real, foi um juiz e senador de Amsterdã, cujo nome está imortalizado nos anais holandeses da época, por causa do papel decisivo que exerceu na promoção da Reforma nos Países Baixos, constantemente durante a tirania espanhola, correndo o risco de perder suas propriedades e sua vida. Com esta senhorita, com quem se casou no dia dezesseis de setembro de 1590, Armínio desfrutou uma felicidade doméstica invejável e ininterrupta. O casal teve sete filhos e duas filhas. Todos morreram na flor de sua juventude, exceto Laurence, que se tornou um comerciante em Amsterdã, e Daniel, que conquistou a mais elevada reputação na profissão da medicina.

Os próximos treze anos da vida de Armínio foram dedicados ao ministério em Amsterdã, com sucesso eminente e grande popularidade, especialmente entre os leigos. Por vezes, sua apresentação ocasional de pontos de vista diferentes dos ministros em torno dele, que eram, quase sem exceção, fortemente calvinistas, o colocou em sérios conflitos. Em 1591, Armínio expôs o sétimo capítulo da Epístola aos Romanos, e em 1593, o nono capítulo da mesma epístola. Nessas exposições, ele apresentou os pontos de vista que estão presentes em seus tratados sobre esses capítulos nesta edição de suas obras, e em cada uma dessas ocasiões, um ânimo considerável foi produzido contra ele. Sua interpretação do sétimo capítulo, em particular, que é substancialmente a mesma adotada por grande parte dos melhores comentaristas modernos, incluindo alguns que se dizem calvinistas, foi contraposta com frequência na época e também posteriormente, com grande aspereza.

Por volta do final de 1602, ocorreu a morte de Francis Junius, professor de Teologia em Leiden. A atenção dos curadores da universidade foi imediatamente direcionada para Armínio, como a pessoa mais adequada para preencher a cadeira vaga. O convite, que foi devidamente estendido a ele, enfrentou a oposição mais vigorosa por parte das autoridades de Amsterdã, a cuja disposição, como já foi dito, Armínio se comprometeu a dedicar seus serviços durante a vida toda. O consentimento para a sua transferência para Leiden foi finalmente obtido por meio da intercessão especial de Uytenbogardt, o célebre ministro de Haia, de N. Cromhoutius, do Supremo Tribunal da Holanda, e do próprio chefe de estado, Maurício, príncipe de Orange. Muitos dos ministros ultracalvinistas protestaram violentamente contra a chamada a uma posição de tanta importância, ocupada anteriormente por alguém cujos sentimentos sobre pontos considerados vitais eram extremamente heterodoxos em relação aos de Armínio. Neste aspecto, eles tinham o apoio de Francis Gomarus, professor em Leiden. Esse homem, naquela época e posteriormente, durante a vida de Armínio, bem como depois de sua morte, nos debates religiosos que se seguiram entre os “Protestantes” e os “Contra-Protestantes”, manifestou um espírito muito restrito e amargo.

Armínio recebeu o título de Doutor em Divindade pela Universidade de Leiden em onze de julho de 1603, e logo começou a desempenhar as funções de professor de Divindade. Ele percebeu rapidamente que os estudantes de teologia estavam se envolvendo nas controvérsias intrincadas e nas perguntas espinhosas dos escolásticos em vez de se dedicarem ao estudo das Escrituras. Armínio se esforçou imediatamente para corrigir esse mal, e para redirecioná-los à Bíblia como a fonte da verdade. Esses esforços, somados ao fato de que seus pontos de vista sobre a Predestinação eram intragáveis para muitos, proporcionaram a oportunidade e um motivo para acusá-lo de uma tentativa de introduzir inovações. Relatórios ofensivos foram espalhados, e os meios mais injustificáveis foram usados para ferir a reputação de Armínio perante o governo e as igrejas. Armínio suportou esses ataques com grande serenidade, mas não se defendeu publicamente até 1608, quando se justificou de três maneiras diferentes; em primeiro lugar, em uma carta para Hipólito, um Collibus, embaixador das Províncias Unidas do Eleitor Palatino; em segundo lugar, em uma “apologia contra trinta e um artigos”, que, embora escrita em 1608, só foi publicada no ano seguinte; e, por último, em sua nobre “Declaração de Sentimentos”, emitida em trinta de outubro de 1608, perante os Estados, em uma assembleia repleta de ouvintes em Haia.

No início do ano seguinte, Armínio teve uma desordem biliosa, contraída por trabalhos e estudos incessantes, e por permanecer sentado por muito tempo. Sem dúvida, a inquietação e a angústia produzidas em sua mente pela malevolência de seus oponentes contribuíram muito para essa enfermidade, que se tornou tão violenta a ponto de fazer com que Armínio não fosse capaz de se levantar de sua cama. Mas durante alguns meses, em intervalos, embora com grande dificuldade, ele continuou a ministrar suas aulas e desempenhou outras atribuições de seu cargo de professor, até o dia vinte e cinco de julho, quando realizou um debate público sobre “a vocação dos homens para a salvação” (veja a página 509, que foi o último de seus trabalhos na universidade. A agitação causada por algumas circunstâncias ligadas a essa disputa produziu um violento paroxismo de sua doença, da qual ele nunca se recuperou. Ele permaneceu em dor física aguda, mas sem redução de sua alegria habitual, e com plena aquiescência à vontade de Deus, até o dia dezenove de outubro de 1609. Naquele dia, por volta do meio-dia, nas palavras de Bertius, “com os olhos voltados para o céu, em meio às orações fervorosas dos presentes, Armínio entregou calmamente o seu espírito a Deus, enquanto cada um dos espectadores exclamou: ‘Ó minha alma, permita que eu morra a morte dos justos’”.

Assim viveu, e assim, com a idade de 49 anos, morreu Jacó Armínio, distinto entre os homens pela virtude e pela amabilidade de seu caráter privado, doméstico e social; entre os cristãos, por sua tolerância para com aqueles que divergiam de suas opiniões; entre os pregadores, por seu zelo, eloquência e sucesso; e entre os teólogos, por suas fortes opiniões; embora suas visões teológicas fossem amplas e abrangentes, era habilidoso ao argumentar, além de franco e cortês ao lidar com as controvérsias. Seu lema era “Bona Conscientia Paradisus”.

Fontes:

As Obras de Armínio, CPAD, Volume 1.